Albergaria-A-Velha | 27-SET-2008 17:47
Produtor de leite sem receio do futuro

Jovem agricultor explica como conseguiu transformar pequeno estábulo de origem familiar numa das maiores explorações de leite da região de Aveiro.



Imagens:

Adalberto Póvoa, produtor de leite.

Adalberto Póvoa, produtor de leite.
Foto Ana Jesus Ribeiro

Hoje em dia já não é agricultor quem quer, mas quem sabe. Adalberto Póvoa, residente em Albergaria-A-Velha, tornou-se aos 37 anos um dos maiores produtores de leite da região de Aveiro.

Tudo começou há 20 anos com um pequeno estábulo familiar que foi erguido na freguesia rural de S. João de Loure para acolher 30 animais.

Adalberto Póvoa concluiu, na altura, o ensino secundário e rumou ao Instituto Superior Agrário de Santarém onde viria a tirar o bacharelato em produção agrícola e depois a licenciatura em engenharia agronómica.

Regressou à terra natal preparado para dar “continuidade” ao esforço dos pais, “sempre direccionado para a produção de leite”.

“Agarrei na exploração de uma forma empresarial”, recorda. Ampliou a área coberta, investiu em máquinas, equipamentos, animais e quotas leiteiras.

O resultado está à vista: 300 animais, dos quais 170 em ordenha (três vezes por dia) que produzem cerca de 150 mil litros por mês. O trabalho começa às 5:00 e termina pelas 22:00.

Para além das estruturas de apoio à actividade, preocupou-se em arranjar mão-de-obra qualificada. Entre os sete funcionários, contam-se vários técnicos formados pela Escola Agrícola e Desenvolvimento Rural de Vagos.
“Competividade e qualidade” são as palavras que resumem a sua aposta estratégica.

Apesar de recusar “dar passos atrás” perante os “muitos obstáculos” que a actividade enfrenta periodicamente, Adalberto Póvoa assume que “os tempos actuais são muito conturbados” no mercado do leite.

Conhecedor profundo de explorações no estrangeiro, o produtor garante que Portugal “já não fica atrás”.

Ameaças do estrangeiro

O problema está na comercialização e distribuição, com “ameaças” que chegam vindas fora das fronteiras sem protecção das autoridades nacionais.

Em causa, a colocação em Portugal de leite excedentário, principalmente de França, por via de marcas brancas e “outros artifícios”, a preços muito baixos, “num trajecto patrocinado pelas grandes superfícies”. Um aumento de 50% no último anos “que assusta”.

O leite nacional, mais caro, fica nas prateleiras. Os preços pagos ao produtor baixam e a rentabilidade das explorações fica posta em causa, com uma agravante: os custos de produção “não param de subir”. A soja, desde Janeiro 2007, subiu 55%. O preço do leite à produção de Novembro de 2007 a Agosto deste ano baixou 12,5% fixando-se actualmente nos 37 cêntimos.

Contas à parte, na casa agrícola Póvoa, que destina todo o leite à Proleite, associada da Lactogal, “o bem estar animal, o chamado maneio, é levado ao extremo”.
Ventoinhas arejam o ar e escovas onde as vacas se coçam, “tudo ajuda a melhor a produção”.

Produtos alimentares nutricionais avançados, com dietas para casos específicos, e tecnologias novas fazem parte do dia-a-dia. A informática é uma alfaia indispensável e a genética conheceu avanços muito significativos.

Não foi por acaso que uma das suas vacas venceu o grande prémio da Agrovouga em 2007 entre muitos outros concorrentes.

A exploração procura ser auto-suficiente em recria para evitar gastos com a aquisição de animais para renovar o efectivo. Uma vaca pode rondar 2.000 a 2.500 euros.

A base de alimentação, as forragens de milho, são produzidas em terrenos próximos, com um grande problema. Os 70 hectares encontram-se espalhados em vários locais, de pequena dimensão, que aumentam os custos. O processo de emparcelamento da região, considerado vital, “tem andado muito lentamente” mas vê-se finalmente “uma luz ao fundo do túnel”.

Selecção natural

Desde há 20 anos, muitos abandonaram a actividade, porque foram envelhecendo e não tiveram continuadores receosos de enveredar por uma actividade com muitos riscos.

“É uma selecção natural”, diz Adalberto Póvoa, salientando, ainda assim, a existência de “várias” explorações “de referência” na região.

Conseguem “remar contra a maré”, mesmo quando o Estado português parece não querer apostar na actividade que tem sido considerada “exemplar”. Um novo “drama” prende-se com a impossibilidade de aceder a fundos comunitários do QREN. “Deixámos de ser prioritários nas comparticipações”, lamenta o produtor.

Já para não falar na inexistência de bonificações nos juros dos empréstimos, “o que não acontece em mais nenhum país comunitário”. Os espanhóis recebem ainda ajudas das regiões autónomas e do Governo central. “Assim como é que poderemos competir?”, questiona Adalberto Póvoa que divide o seu tempo com a presidência da Junta de Freguesia de S. João de Loure.

- Como vê o futuro ?
Dar passos atrás nunca, a não ser que queira terminar. Mas não é esse o nosso objectivo. Estamos com expectativa para ver alguns aspectos complicados, como os licenciamentos e o possível fim das quotas leiteiras, o que não será benéfico para os produtores portugueses.
Apesar disso tudo, o nosso desafio é aumentar a exploração, com mais dimensão, produzir mais para diluir os custos. Isto vai depender também da disponibilidade de terra aqui à volta, para sermos auto-suficientes em matérias-primas.

Maior receio actual ?
- O leite que vem de fora. Pouco mais de 10% do leite francês é tanto quanto a nossa quota nacional. Eles têm um excedente de 6,5%. Colocam a qualquer preço em Portugal e em Espanha, resolvem vários problemas desta forma. Isto veio prejudicar-nos e muito. 80% do leite das marcas brancas em Portugal é de origem estrangeira.
Era importante o Governo preservar o produto nacional, reservando-lhe uma quota de comercialização, em contrapartida pela abertura de grandes superfícies por exemplo.

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