Praia da Barra, Ílhavo (Foto partilhada pelo Turismo Centro de Portugal).

No turismo, um conflito ou uma crise, perturbam e de que maneira a atividade. O turismo é a indústria da paz e qualquer instabilidade, desacordo internacional ou disputa entre países, impacta negativamente o setor.

Por Jorge Nogueira *

“Nunca desperdice uma boa crise” Winston Churchill

O mundo mudou. O novo mundo é VUCA e BANI. Volátil, incerto, complexo e ambíguo. Frágil, ansioso, não linear e incompreensível. Como diria o antigo primeiro-ministro António Costa, habituem-se!

Por outro lado, a economia é feita de ciclos de expansão e recessão. A teoria dos ciclos económicos tem vindo a estudar as flutuações da atividade económica ao longo do tempo. Há quem defenda ciclos de dez anos (sete de expansão e três de recessão) e quem argumente que os ciclos económicos estão a ficar cada vez mais curtos. Acredito que esta abordagem está a ficar ultrapassada, pois é de difícil comprovação científica e não tem por base um modelo rigoroso de previsão.

Um conflito pode desencadear uma crise, quando se agrava ou se estende no tempo e no espaço. As crises não são acontecimentos previsíveis, mas acabam por ser normais. Então podemos encarar e enfrentar estes acontecimentos através de três perspetivas: como uma situação a analisar (perspetiva neutra), como um problema (perspetiva negativa – uma coisa má) ou como um desafio (perspetiva positiva – uma oportunidade). O ponto mais importante é o grau de vulnerabilidade em que nos encontramos quando uma crise chega. Organizações melhores preparadas resistem e recuperam melhor. O esperado seria ter, por exemplo, uma almofada financeira que cubra os custos fixos da empresa nos próximos 3 a 6 meses. Ou então ter uma reserva financeira de 10 a 20% do volume de faturação.

Concretamente no turismo, um conflito ou uma crise, perturbam e de que maneira a atividade. O turismo é a indústria da paz e qualquer instabilidade, desacordo internacional ou disputa entre países, impacta negativamente o sector. Ao avaliar os impactos diretos e indiretos, temos de analisar os desvios nos fluxos turísticos internacionais no Incoming e Outgoing.

O conflito no Médio Oriente, veio desencadear uma escalada assimétrica no preço dos combustíveis e consequente aumento nos custos operacionais dos players do turismo. E levou também a uma redução drástica do tráfego aéreo na região do Golfo Pérsico e ao redesenho das viagens internacionais. Os agora condicionados aeroportos de Doha e Dubai, são hubs que funcionam como uma verdadeira plataforma giratória para os voos intercontinentais, principalmente os provenientes da Ásia.

Assim, e quanto ao Incoming, é previsível que cheguem ao nosso país, menos asiáticos, israelitas e árabes. Por outro lado, é expetável o aumento do turismo de proximidade, com o recebimento de mais turistas europeus que tenderão a evitar destinos menos seguros como o Chipre, Turquia, Egipto, Jordânia, Dubai e Israel. Como Portugal é percecionado como um destino seguro, estável e está longe da zona de conflito, há a possibilidade de beneficiar desta alteração nos fluxos turísticos e fruto deste desvio de tráfego, poderá até aumentar o número de turistas que nos visitam.

Relativamente ao Outgoing é provável o cancelamento das viagens para o Médio Oriente, uma redução das viagens para a Ásia e um desvio do fluxo turístico emissor de turistas nacionais para a Europa, mas também para a América e África.

Pegando novamente nas diferentes maneiras de encarar um conflito, prefiro focar-me em tentar transformar uma crise numa circunstância conveniente. Embora não desejável, uma crise sendo curta, pode ter efeitos positivos, dependendo da forma como ocorre e da rapidez de recuperação. No interior da empresa, pode até forçar a implementação de mudanças necessárias, funcionando como um catalisador. Um choque temporário, “abana” a economia, “limpa” do mercado as empresas menos eficientes, estimula a inovação, “liberta” mão-de-obra e sobe os preços dos produtos. A crise pode assim servir de argumento para subir os preços dos produtos e serviços turísticos, que depois dificilmente baixarão.

A grande incógnita, a tal pergunta de um milhão de dólares, será qual a duração do conflito no Irão, pois só o tempo poderá determinar se teremos economicamente inflação, estagflação ou no caso de prolongamento do conflito, recessão. Em caso de escalada do conflito, teremos uma crise de longa duração, recessão económica, para meses ou anos, com graves prejuízos no turismo global e a análise terá de ser outra, com uma abordagem mais dura e agressiva. O que espero sinceramente não venha a acontecer.

* Economista e CEO & Founder da Iberobus. Artigo publicado originalmente no site Publituris.pt.

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