
“Um documento puramente contabilístico”. Foi assim que o presidente da Câmara de Aveiro classificou, na Assembleia Municipal, esta segunda-feira à noite, o relatório de liquidação da Aveiro Expo, empresa formada com a Associação Industrial do Distrito de Aveiro (AIDA), garantindo que “não tem nada a ver com excitações político-eleitorais”.
A polémica foi suscitada pela referência entre as imparidades a um valor de 20 mil euros atribuído a Diogo Machado, no tempo em que foi diretor da empresa, dizendo respeito a adiantamentos por conta de despesas do agora candidato do Chega à Câmara. Diogo Machada reagiu denunciando uma tentativa de “assassinato político” e apresentou, ato imediato, uma queixa por difamação contra o edil e o vereador Rui Soares Carneiro, por ter sido quem primeiro invocou o seu nome no executivo.
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“Não há nestes documentos nenhum ato político para sancionar seja quem for ou para vir perturbar as discussões eleitorais”, começou por assegurar Ribau Esteves ao abordar as imparidades registadas nas contas (algo com expressão financeira sem suporte documental).
Referindo-se “ao problema maior”, que deu “um bruaá absurdo e sem sentido”, o edil assumiu que teve alguma cautela na introdução do debate na Câmara em “pronunciar” o nome do visado, confirmando só após o pedido de esclarecimento de Rui Soares Caneiro, “com toda a legitimidade e pertinência”. Isto por causa de situações anteriores, em que, alegadamente, foi “tratado” pelo antigo diretor “do pior que já foi tratado na minha vida, a ameaçar da maior violência que já fui ameaçado”. Na mais recente reação de Diogo Machado, Ribau Esteves viu “alguém que se procura vitimizar de coisas que nem estão contadas neste documento”.
“Saiu dinheiro e não entrou documento justificativo”
O “tal diretor levantava dinheiro nas máquinas e depois apresentava comprovativos de despesa, era original, mas era assim”. Ou seja, explicou Ribau Esteves, “saiu dinheiro e não entrou documento justificativo”, esclarecendo que “no conceito geral trata-se de uma dívida, mas formalmente não”, se a pessoa “apresentar documentos, de onde gastou o dinheiro a trabalhar para a empresa”. Tal não aconteceu até ao fecho das contas. “Tudo o resto é uma excitação sem qualquer sentido, à qual não respondo, fui tratado do pior, com palavras violentíssimas. Nunca na vida traria o nome dessa pessoa porque já sei o que a casa gasta”, acrescentou, considerando que “não é justo” para o vereador Rui Soares Carneiro ser visado pela queixa”, uma vez que questionou com “legitimidade democrática” os 20 mil euros imputados ao ex- diretor.
Discurso direto
“Aqui não há ações judiciais, ações políticas é um documento puramente contabilístico. Há uma imparidade, saiu despesa e não entrou documento. Dívida sim, mas no conceito técnico formal não. Não apresentou os documentos até ao fim” – Ribau Esteves.
Nuno Teixeira, do PCP, lamentou que a empresa tenha sido utilizada para ‘jobs for the boys’ e “sem dúvida um deles mordeu a mão do dono”. João Moniz, do BE, aludiu à liquidação como o desfecho de “anos de má gestão” que obrigaram, por força da lei, à liquidação, estranhando a demora no processo, que acaba por coincidir com período eleitoral. Já Mário Costa (PS) questionou, como sendo alegadamente devedor o ex-diretor tenha recebido uma indemnização de 5 mil euros da Câmara.
Ribau Esteves não quis aprofundar mais o assunto invocando o processo eleitoral, “apesar de ter todas respostas com clareza”, garantindo que não foi possível aprovar a “liquidação” mais rápido por dificuldades várias, desde logo por não se pretende fazer refletir responsabilidades financeiras na ex-sócia Associação Industrital do Distrito de Aveiro.
“Muita desta baralhação é a mistura de um processo judicial anterior à minha chegada”
Ainda sobre o ex-diretor, disse que depois de tomar posse como presidente em 2013 recebeu a carta de demissão da pessoa “com um conjunto de questões”. “Muita desta baralhação é a mistura de um processo judicial anterior à minha chegada, sobre questões laborais em que foi dada parcial razão e daí a tal indemnização, mas não tem nada a ver com isto. A única coisa que conseguimos ver devolvida foi que a pessoa, mesmo depois de sair, ainda usou o cartão de credito, 700 euros que levantou e obviamente repôs”, relatou.
Discurso direto
“Não fui mandatado para defender ninguém, mas para defender os aveirenses que me elegeram e a ideologia do partido. Não sou responsável pelas pessoas que o partido escolhe, é um processo que desconheço e estou completamente fora. Cumpri o mandato com assiduidade 100%, tentei honrar o partido e quem vier a seguir que prossiga o seu caminho, passarei a militante de base e pronto para futuras batalhas. Não fui mandatado para defender ninguém, por isso permanecia calado” – Gabriel Bernardo, eleito do Chega, quebrou a unanimidade na aprovação das contas de liquidação ao abster-se.
Em 2013, a Aveiro Expo tinha um prejuízo milhão de euros. O covid fez parar a atividade (2020 e 2021), obrigando a Câmara a financiar os seus custos correntes. Depois foi possível recuperar financeiramente, mas já estava abrangida (até 2014) pela lei que dita o fim de empresas municipais com prejuízos (lei 50/2012). A Câmara criou uma nova empresa, a Parque Expo, agora tendo como sócia a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro.
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