Canal central, Aveiro.

Portugal tem hoje a oportunidade de construir um turismo verdadeiramente nacional onde o visitante conhece não apenas as cidades mais conhecidas, mas a diversidade do país no seu todo, do litoral ao interior, das grandes cidades às pequenas comunidades, do continente às ilhas.

Por Rui Terroso *

Portugal é hoje um destino turístico reconhecido internacionalmente, mas importa enquadrar este sucesso com realismo: o turismo com verdadeiro significado económico e escala internacional é recente. O país vive, na prática, pouco mais de uma década de crescimento turístico consistente, o que faz de Portugal um destino ainda jovem, com enorme margem de crescimento e evolução.

Os fluxos turísticos concentram-se, naturalmente, em destinos consolidados como Lisboa, Porto, Algarve e Madeira, que cumprem um papel essencial como portas de entrada do país. O desafio que hoje se coloca não passa por desvalorizar ou conter estes destinos, mas antes por expandir o turismo para o restante território nacional – continental e ilhas -, onde muitas regiões ainda registam uma fraca dinâmica turística e poderiam beneficiar de forma significativa do seu impacto económico e social.

É neste contexto que surge o Turismo 2.0: uma nova fase de maturidade, focada na distribuição, inclusão territorial e criação de redes turísticas nacionais, que já se começa a verificar, estamos a dar os primeiros passos desta nova tendência de expansão para todo o território nacional.

Alargar, não substituir: o papel dos destinos âncora

Lisboa, Porto, Algarve e Madeira continuarão a ser motores fundamentais do turismo português. O modelo 2.0 não passa por deslocar turistas destes destinos, mas por criar extensões naturais da experiência turística, incentivando estadias mais longas, itinerários regionais e visitas a novos locais.

Na prática, trata-se de transformar os grandes destinos em hubs de distribuição, a partir dos quais os turistas descubram o interior, as vilas históricas, as regiões rurais e as áreas menos conhecidas do país.

O exemplo italiano: turismo distribuído por todo o território
A Itália é um dos melhores exemplos europeus de turismo territorialmente equilibrado. Para além dos grandes ícones urbanos, o país conseguiu desenvolver um modelo onde praticamente todas as regiões, cidades e vilas recebem turistas de forma regular, criando economias locais ativas e sustentáveis.

Este sucesso assenta em várias estratégias replicáveis:

• Valorização das pequenas localidades através de programas como I Borghi più belli d’Italia, que identificam e promovem aldeias com valor histórico, cultural e paisagístico;

• Selos de qualidade turística territorial, como a Bandiera Arancione, que garantem padrões de hospitalidade, sustentabilidade e oferta cultural em pequenas vilas:

• Modelos inovadores de alojamento, como o Albergo Diffuso, que integra os visitantes no tecido urbano e social das comunidades;

• Turismo experiencial e lento, com foco na gastronomia local, tradições, natureza e vivência comunitária.

O que Portugal pode fazer no modelo de Turismo 2.0

Portugal reúne condições excecionais para aplicar este modelo, sobretudo por ainda estar numa fase inicial do seu desenvolvimento turístico. Algumas ações concretas incluem:

1. Incluir novos territórios na oferta turística nacional
• Criar roteiros nacionais e regionais que liguem os grandes destinos a regiões menos visitadas;

• Desenvolver sistemas de certificação e distinção turística para vilas e micro-regiões que invistam em qualidade e identidade.

2. Facilitar a circulação dos turistas pelo país;
• Melhorar a articulação entre transportes, excursões e experiências regionais;

• Incentivar viagens de vários dias e road trips, promovendo o aluguer de viaturas e circuitos interregionais;

• Apostar em produtos turísticos desenhados para dispersão geográfica, não apenas visitas pontuais.

3. Criar experiências locais com identidade
• Gastronomia regional, enoturismo, artesanato, turismo agrícola e cultural;

• Eventos e festivais que valorizem a identidade local e atraiam visitantes ao longo do ano:

• Envolvimento direto das comunidades no desenho da experiência turística.

4. Desenvolver alojamento integrado nas comunidades
• Adaptar o conceito de Albergo Diffuso (modelo de alojamento de origem italiana, em que as unidades se distribuem por várias casas de uma aldeia, funcionando como um hotel único e promovendo a revitalização do território) a aldeias e vilas portuguesas;

• Incentivar projetos que recuperem património edificado e criem impacto económico direto local.

A experiência no terreno: quando os destinos pedem turismo

Na prática, esta necessidade é já sentida no terreno. Empresas como a Living Tours são frequentemente contactadas por autarquias e destinos com pouco ou nenhum turismo, que procuram apoio para atrair visitantes e integrar-se nos fluxos turísticos nacionais e internacionais.

Estes pedidos revelam uma realidade clara: há território, há oferta, há vontade – falta estrutura, ligação aos mercados e modelos eficazes de distribuição. O Turismo 2.0 responde precisamente a esta lacuna, criando pontes entre destinos consolidados e regiões que precisam do turismo para gerar desenvolvimento económico, emprego e fixação de população.

Um turismo que chega a todo o país

Inspirar-se no modelo italiano não significa copiar soluções, mas adaptar princípios: distribuição, identidade, qualidade e ligação entre territórios.

Portugal tem hoje a oportunidade de construir um turismo verdadeiramente nacional onde o visitante conhece não apenas as cidades mais conhecidas, mas a diversidade do país no seu todo, do litoral ao interior, das grandes cidades às pequenas comunidades, do continente às ilhas.

O Turismo 2.0 é isso mesmo: um turismo que cresce incluindo, ligando e valorizando todo o território português.

* CEO e fundador da Living Tours. Artigo publicado no site Publituris.pt.

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