
Agora que o “Mundial” de futebol já se joga, veio-me à memória, um episódio protagonizado por um dos mais importantes árbitros que o futebol português, conheceu até aos dias de hoje, António Garrido de seu nome.
Garrido foi o primeiro árbitro português do quadro da FIFA. Esteve presente em dois campeonatos do mundo de futebol e num campeonato europeu. Arbitrou também a final da Taça dos Clubes Campeões Europeus, competição que antecedeu a actual Liga dos Campeões, entre o Hamburgo e o Nottingham Forest.
Foi sempre um árbitro que soube, como agora se diz, gerir a sua carreira, nomeadamente em termos internacionais, segundo afirma quem o conheceu mais intimamente no mundo da arbitragem e que chegou a ser seu auxiliar em vários jogos internacionais. Garrido chegava ao “pequeno” pormenor de ter na sua agenda os números de telefone e os endereços dos “manda-chuva” da arbitragem ao nível da UEFA e da FIFA, acrescentando esta curiosa particularidade: tinha anotado na dita agenda os dias de aniversário das tais individualidades que, na altura própria, não se esquecia de felicitar!
Mas, para além da sua competência técnica, Garrido tinha uma gestão “inteligente” do jogo que arbitrava. Ficou célebre em alguns bastidores futebolísticos a cena que contou aos companheiros de equipa, que ocorreu nos anos 80 do século passado, em Vila do Conde.
Defrontavam-se no velho Campo da Avenida (o actual Estádio dos Arcos só foi inaugurado em 1984) o Rio Ave e uma equipa do sul do país.
O desafio era importante para as duas competidoras e o resultado a poucos minutos do final do desafio estava num empate sem golos, que beneficiava os visitantes.
Numa reposição de bola em jogo, um lance de pontapé de baliza, o guarda-redes da equipa visitante estava a a fazer tudo para retardar o desafio. Os adeptos do Rio Ave protestavam ruidosamente com a acção do guarda-redes contrário. Garrido, que assistia a tudo praticamente do meio do campo, ordenou a reposição da bola em jogo. O jogador com ar “molengão” lá ajeitou mais um pouquinho o esférico. António Garrido não gostou e correu para o guarda-redes com propósitos de admoestá-lo. Chegou junto dele, fez uma cara de “mau”. Os adeptos vilacondenses estavam praticamente em cima do campo. Mantendo a cara de “mau”, virou-se para o guarda-redes e a meia-voz disse:
– Trata da tua, que eu trato da minha!
A reposição da bola foi imediata. Garrido ouviu uma grande ovação de aprovação dos adeptos vilacondenses que se encontravam por detrás da baliza. Ao outro dia, os críticos da especialidade, nos jornais , assinalavam a boa arbitragem e destacavam o tom firme do árbitro!
Como diria o outro: viver não custa, o que custa é…saber viver!
Jesus Zing
NOTA: António Garrido faleceu em Setembro de 2014, com 81 anos de idade. Foi árbitro FIFA de 1972 a 1982. Condecorado em 1983, pelo Presidente da República, Ramalho Eanes com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Atingiu o apogeu da sua carreira, quando em 28 de Maio de 1980, arbitrou a final da Taça dos Clubes Campeões Europeus (antecessora da Liga dos Campeões), no Estádio Santiago Bernabeu, em Madrid (Espanha), ganha pelo Nottingham Forest (1-0) em que o adversário era o Hamburgo. Esteve também nos “Mundiais” de futebol Argentina/78 e Espanha/82 e no Euro/80. Fez parte de várias comissões de arbitragem da UEFA como consultor. Nos últimos anos de vida esteve ligado ao FC do Porto e foi apanhado nas escutas do célebre processo “Apito Dourado”, que investigou suspeitas de corrupção no futebol português, em 2010.
Siga o canal NotíciasdeAveiro.pt no WhatsApp.
Adicionar Notícias de Aveiro às suas fontes preferidas no Google.
Montra Online NotíciasdeAveiro.pt
Consulte as oportunidades (artigos e serviços).
Publicidade e donativos
Está a ler um artigo sem acesso pago. Pode ajudar o jornal online NotíciasdeAveiro.pt. Siga o link para fazer um donativo . Pode, também, usar transferência bancária, bem como ativar rapidamente campanhas promocionais ( mais informações aqui ).






