
Apesar da centralidade conferida ao território nos discursos institucionais, importa questionar até que ponto este é reconhecido na sua singularidade e complexidade como referência estruturante da ação educativa – ou se, pelo contrário, permanece num plano retórico, com o seu património reduzido a cenário, sem ser plenamente explorado como recurso gerador de conhecimento e transformação.
Por Vera Lazana *
Este texto propõe uma reflexão sobre a articulação entre a educação, o património e a tecnologia, ancorada nas especificidades locais e expressa através dos Projetos Educativos Locais (PEL). Sustentado numa análise de práticas educativas territorialmente contextualizadas, defende-se que uma ação a partir do património pode favorecer os processos participativos e a ação coletiva de mudança. Esta abordagem revela-se particularmente significativa no campo da educação não formal – embora não limitada a este –, em que tendem a emergir experiências educativas inovadoras, intimamente ligadas ao contexto e às dinâmicas das comunidades locais.
Destacam-se três dimensões centrais. A primeira é o papel da tecnologia na ação educativa. A tecnologia tanto pode criar distância como abrir caminhos. Quando colocada ao serviço de estratégias locais bem definidas, pode ser o impulso necessário para experiências mais próximas, significativas e partilhadas. Importará, portanto, acompanhar estes processos e perceber modos de apropriação de ferramentas digitais no âmbito dos PEL que potenciem a experiência presencial, a ida ao lugar, a aprendizagem em contexto.
A segunda dimensão incide sobre o património como recurso simbólico e identitário. Se reduzido a mero cenário ou conteúdo informativo, perde-se a oportunidade de ser ativado como meio de criação de vínculos afetivos. Cabe às instituições locais, com particular destaque para os Municípios, pelo seu papel de liderança nos PEL, promoverem experiências de aprendizagem que impliquem a mobilização dos diferentes atores na construção de sentidos e experiências partilhados.
A terceira dimensão diz respeito à importância da articulação entre o poder local e as instituições de ensino superior, essencial para garantir a sustentabilidade, a profundidade e a legitimidade das estratégias adotadas.
Quando o conhecimento técnico do poder local se cruza com a investigação comprometida, criam-se condições únicas para a melhoria das políticas públicas e dos territórios. Este caminho conjunto, assente na escuta mútua e na produção partilhada de conhecimento oferece um potencial transformador único. Por isso, é essencial estabelecer agendas comuns que garantam um percurso conjunto, contínuo e complementar, que permita responder de forma adequada aos desafios emergentes e às necessidades reais das comunidades.
* Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro. Artigo publicado originalmente no site UA.pt.
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