Sem habitação nada feito

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Foto do PCP (Bairro do Griné).
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Depois de anos e anos é outra vez anunciado concurso para obras nos Bairros do Caião e do Griné, no concelho de Aveiro.

Este artigo é publicado por NotíciasdeAveiro.pt no âmbito do espaço de opinião mensal disponibilizado aos partidos com representação na Assembleia Municipal de Aveiro, que foram convidados a ocuparem, com tema livre, a partir do mês de maio.

Por Nuno Teixeira *

O Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU) anuncia 1,3 Milhões para este dois bairros. Esse mesmo instituto, tutelado pelo Ministro Pedro Nuno Santos, já tinha anunciado acções de despejo, no bairro do Griné, até ao momento 5 das 14 famílias visadas já foram expulsas das casas onde viviam.

Este processo de despejos encetado pelo IHRU ficará marcado pela demonstração de união dos moradores, que de forma organizada arregaçaram as mangas e se propuseram a lutar pelo sonho a ter um tecto.

Cansados de anos a fio, nada mais serem que um nome em listas de espera sem que houvesse uma resposta, do IHRU ou da Câmara Municipal de Aveiro, enquanto viam ao seu redor casas desocupadas, a degradarem-se. Sem outra alternativa, estas 14 famílias tiveram que tomar nas suas mãos a garantia do direito à habitação. Com esperança num futuro melhor, foram reparando e melhorando aquelas habitações outrora fechadas a tijolo.

A decisão de despejar estas famílias, acusando-as de ocuparem as casas, nada mais é que esconder anos e anos de faltas de respostas aos problemas de habitação no concelho de Aveiro e no país. O bairro do Griné é demonstração que as políticas de habitação privilegiam fechar casas a tijolo, ao invés de dar resposta às pessoas que necessitam de um lar.

Num passar de responsabilidades a Câmara Municipal de Aveiro, coloca-se de parte, não criando nenhuma solução, nem mesmo temporária, para as duas famílias, que incluem crianças, que dormem há semanas em tendas improvisadas.

A postura, quer do IHRU, quer da Câmara Municipal demonstra que o direito à habitação, consagrado na nossa Constituição, só existe verdadeiramente no papel.

Os Aveirenses são confrontados com rendas elevadíssimas, motivadas pela especulação imobiliária, sem que haja políticas que criem mecanismos para travar e resolver tais abusos. A vida vai provando a cada dia que passa que o mercado imobiliário não irá parar esta especulação que vai saciando a ganância de meia dúzia, que vive à custa de todos nós.

O que assistimos no concelho de Aveiro, é fruto de anos de políticas de habitação que fomentaram e apelaram a compra de casa própria, empurrando as famílias portuguesas para o endividamento, ao mesmo tempo contribuíram para a retirada de muitas famílias dos centros das cidades para aí aparecerem serviços, lojas e claro residências para turistas, com o nome pomposo de alojamento local.

Hoje os rendimentos dos portugueses são atacados, não por via do corte de salários, como no passado o fizeram, mas sim à custa da ganância, que usa a especulação para subir preços, até de bem de primeira necessidade.

Cada mês que passa os salários vão ficando mais curtos.

Cada dia que passa continua portugueses a empobrecer, mesmo estando a trabalhar e recebendo o seu salário ao fim do mês.

Aumentar salários é que não pode ser! Isso poderia criar uma escalada de aumento nos produtos, gritam eles de barriga cheia, para tentar travar a luta de quem sonha com o futuro melhor.

Controlar preços, não dá jeito! dizem eles, o que seria do nosso tão amado mercado.

A culpa disto tudo hoje é da Guerra, há uns meses atrás era da Covid-19. Em tempos, que estão bem presentes na memoria dos portugueses, até nos foi dito que vivíamos acima das nossas possibilidades, e iríamos ser salvos por uma Troika abençoada.

Com a luta os portugueses derrotaram as Troikas que nos governaram, combateram os ataques aos direitos que a pretexto da pandemia nos queriam impor, e não irão ficar quietos quando utilizando o conflito na Ucrânia vemos engordar os lucros das grandes empresas à custa de todos nós.

Não queremos um país onde um jovem não pode continuar os estudos, porque estando deslocado não tem condições para suportar uma renda.

Não queremos um país onde os jovens não podem sair de casas dos pais porque o dinheiro não chega para uma habitação própria.

Não queremos um país onde desalojar famílias seja visto como uma solução.

A luta dos moradores do Bairro do Griné só poderá merecer toda a solidariedade de quem acredita numa sociedade mais justa, numa sociedade onde ter uma casa para morar não seja um privilégio mas sim um direito.

*  Vogal do PCP na Assembleia Municipal de Aveiro.

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