Recriação do torrão da Ria de Aveiro – uma tradição ancestral

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Apanha de torrão, Ria de Aveiro.

Queremos chamar a atenção para esta técnica, e para o seu valor, histórico, patrimonial, mas também ambiental e estético.

A Associação Centro da Terra, em colaboração com a Explore-Aveiro, promovem de uma visita guiada ao tema injustamente esquecido do ‘torrão’.

O ‘torrão’ foi o material que durante séculos construiu os muros das marinhas da Ria de Aveiro!

O ‘torrão’ é um paralelepípedo de terra argilosa, com uma face quadrada de aproximadamente 25 cm, com a profundidade igual às medidas da lâmina da enxada usada para os retirar do chão das praias de junco onde eram produzidos.

Os blocos extraídos eram transportados de barco até à marinha e colocados deitados, por camadas, na mesma sequência em que eram extraídos.

Com a escassez de outro tipo de material nas proximidades, e com as dificuldades de acesso a estas ilhas da Ria de Aveiro, as motas eram construídas por duas paredes paralelas de ‘torrão’ que delimitam as marinhas e evitam a inundação durante as marés.

A zona interior era toda preenchida com lamas provenientes do interior da marinha e que, por serem materiais muito argilosos, lhe conferiam a necessária impermeabilidade.
Era uma tarefa que exigia grande esforço físico, tempo, conhecimento e mão-de-obra.

Como os torrões eram retirados das Ilhas de Junco, transportam estas plantas e suas raízes. As raízes ajudavam a estabilizar o conjunto, e as plantas, cresciam de novo e davam beleza a estes muros verdes – autênticos “jardins verticais”, que ladeavam os canais entre as Marinhas da Ria de Aveiro.

Estamos portanto perante um material biodegradável, ecológico e de efeito estético muito interessante. A mecanização da construção e a vulgarização de materiais de mais fácil utilização e maneio, veio promover o crescente abandono desta técnica, que com tempo tem sido até esquecida.

Com esta ação, queremos chamar a atenção para esta técnica, e para o seu valor, histórico, patrimonial, mas também ambiental e estético. Faz parte integrante da identidade e da imagem da nossa laguna. Devemos portanto conhecer, estudar e divulgar.

Assim, propomo-nos  recriar esta tradição, com o apoio de um marnoto que generosamente connosco partilha o seu saber, nesta técnica que desde criança aprendeu todos os segredos: o senhor João Instrumento. Mas também com o conhecimento científico da Universidade de Aveiro, na pessoa do investigador António Figueiredo e a engenheira Maria Carlos, que também há vários anos se interessaram e estudaram o material e o processo construtivo e que aceitaram o nosso desafio de acompanhar a visita.

O Sandro Sousa, da Marinha da Passagem, aceitou receber-nos e deixou-nos trabalhar num dos muros da sua marinha. Durante a visita teremos a oportunidade de realizar uma visita guiada a esta magnífica marinha com um momento de degustação de Ostras e vinho.

Será também apresentada uma pequena brochura sobre o material e a sua história e está prevista uma visita à ilha e uma pequena degustação (mais informações).

* Arquiteta Maria Emília Lima, investigador António Figueiredo e engenheira Maria Carlo.