Aveiro Capital Portuguesa da Cultura.

A Arte pode ser muito mais do que ilustração na ciência, pode começar na forma de pensar o problema, colocar perguntas, recolher e analisar dados e partilhá-los com o mundo. Tudo isso através da Art Based Research.

Por Cristina Domingues *

Às vezes, as pessoas pensam na investigação científica como algo distante, feita em laboratórios, escrita em artigos, discutida em congressos, numa linguagem que nem sempre chega a quem mais diz respeito, às pessoas. E se a ciência pudesse ser sentida antes de ser explicada? Um desenho, uma escultura ou uma performance não substituem um artigo científico, mas podem abrir uma porta diferente para a mesma realidade, fazendo-nos compreender algo que as palavras, por si só, não alcançariam.

É esta a aposta da Art Based Research (Investigação baseada na Arte), uma abordagem que não usa a arte apenas para ilustrar resultados, mas que entra no coração da investigação: na forma de pensar o problema, colocar perguntas, recolher e analisar dados e partilhá-los com o mundo.

A arte fala uma língua que quase todos entendemos. Um gráfico pode mostrar-nos uma desigualdade; uma imagem pode fazer-nos sentir essa desigualdade. E é nesse sentir que nasce, muitas vezes, a vontade de agir. A arte não substitui o rigor científico, mas complementa-o, permitindo que pessoas que nunca leram um artigo científico participem na conversa, questionem e contribuam – transformando o conhecimento de algo que se transmite em algo que se partilha.

Foi a participação num curso sobre Art-based Research que mudou a minha forma de olhar para a investigação sobre multilinguismo. Há pessoas que falam outras línguas, ou que se sentem mais confortáveis a expressar-se através de imagens, do corpo, de sons e que acabam por ficar de fora de reuniões públicas, consultas ou questionários. A arte não exige o mesmo domínio da língua para ter significado e pode incluir quem normalmente não tem voz, transformando quem seria “apenas” objeto de estudo em coautor do conhecimento.

Imaginemos um projeto sobre participação cívica que procura entender o fraco envolvimento em assembleias municipais ou no orçamento participativo. Em vez de preencherem um questionário, fotografariam ou desenhariam “um lugar de que gostam” e “um lugar que gostariam de mudar”. Essas imagens tornam-se dados: os locais escolhidos, os pormenores destacados dizem-nos algo sobre preocupações talvez não expressas em voz alta, sobretudo por quem ainda aprende a língua. Conversando com cada pessoa, com a ajuda de mediadores linguísticos se necessário, o investigador procura compreender o que foi representado e porquê. As imagens podem então voltar à comunidade, por exemplo através de uma exposição, para que todos acedam ao conhecimento produzido.

A UA acolhe um evento que partilha esse espírito: as IX Jornadas do Programa Doutoral em Educação, dedicadas ao tema “Pontes entre Ciência e Sociedade”, no dia 9 de julho, no DEP. Num tempo em que as comunidades são cada vez mais plurais, talvez a ponte mais forte não seja feita só de dados, mas também de cor, de imagem e de construções artísticas colaborativas.

* Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro. Artigo publicado no site UA.pt.

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