Filme sobre Carlos Paião.

“Playback” é também uma viagem no tempo. Uma viagem que nos devolve os grandes êxitos de Carlos Paião e que, pelo menos no meu caso, desperta memórias de infância.

Por Nuno Alexandre *

No passado dia 6 de agosto, estreou nas salas de cinema o filme “Playback”, de Sérgio Graciano, que está, mais uma vez, de parabéns. Depois de trazer para o grande ecrã as histórias de figuras tão importantes como Salgueiro Maia, Álvaro Cunhal e Mário Soares, desta vez leva-nos numa viagem pelo universo musical e pela vida de Carlos Paião. E posso garantir-vos que foi uma viagem muito bonita!

A 26 de agosto de 1988, o cantor e compositor perdeu a vida num trágico acidente de viação na antiga Estrada Nacional 1, perto de Rio Maior, quando seguia de carro a caminho de um concerto nas festas de São Ginésio, em Penalva do Castelo. Tinha apenas 30 anos. Teve uma vida demasiado curta, mas deixou-nos uma obra que o tempo jamais conseguirá apagar.
Carlos Paião foi médico e, além disso, um homem romântico, talentoso e sensível, mas, acima de tudo, profundamente apaixonado pela música.Tenho a certeza de que Portugal nunca o esqueceu e nunca o esquecerá.

Todos sabemos que chegará um dia em que teremos de partir, mas a memória permanece, tal como permanecem as atmosferas, as emoções e as vivências de cada época. E o Carlos permanece vivo através das suas canções. É nelas que continua a existir, a emocionar e a fazer parte da memória de um país e de várias gerações.

Ílhavo está profundamente ligada à vida e à memória de Carlos Paião. Embora tenha nascido em Coimbra, em 1957, foi nesta cidade do distrito de Aveiro, terra natal dos seus pais, Ofélia e Carlos, que viveu grande parte da sua infância e juventude. Foi também em Ílhavo que começou a dar os primeiros passos no universo musical. Em dezembro de 1978, venceu o VI Festival da Canção do Illiabum Clube, com a canção “Canto de Guerra”, num momento que permanece na memória de muitos ilhavenses. Sei o carinho que muitos habitantes de Ílhavo nutriam por Carlos Paião e que ainda hoje se traduz nas palavras com que o recordam: um homem talentoso, divertido, com um enorme sentido de humor e, sobretudo, de bom coração. Por isso, a notícia de que a sua vida chegaria ao cinema foi recebida na cidade com enorme alegria e entusiasmo.

Em 2021, a autarquia anunciou a criação de uma estátua do cantor, de autoria do artista plástico Albano Martins. A obra viria a ser inaugurada no dia 26 de junho de 2021, aquando da renovação do Jardim Henriqueta Maia, onde hoje pode ser visitada, na Calçada Carlos Paião, no centro urbano de Ílhavo. Os pais de Carlos Paião estiveram presentes na inauguração. Foi um momento particularmente emotivo, não apenas pela homenagem ao artista, mas também pela forma como Ílhavo reafirmou a ligação a um dos seus filhos do coração.

Em 1981, Carlos Paião venceu o Festival da Canção com “Playback”, representando assim Portugal no Festival Eurovisão, em Dublin. Subiu ao palco acompanhado por Ana Bola, Cristina Águas, Peter Peterson e Pedro Calvinho, levando consigo uma das suas canções mais emblemáticas. Pouco antes de partir para a Irlanda, viveu também um momento muito especial na sua vida pessoal: casou com Zaida Cardoso, o grande amor da sua vida. Foi, portanto, um período de grande realização, tanto no plano profissional como pessoal, que o filme procura também retratar.

A toda a equipa e ao elenco, os meus parabéns. “Playback” é um filme extraordinário e o entusiasmo que tem gerado junto do público parece confirmar isso mesmo. Em menos de uma semana, tornou-se já o filme português mais visto nas salas de cinema.

O Ator Rafael Ferreira assume o papel de Carlos Paião e tem uma prestação verdadeiramente brilhante. A sua interpretação é tão convincente que, por momentos, enquanto o via naquele grande ecrã, tive a sensação de estar perante o próprio Carlos Paião. Há gestos, expressões e uma energia que tornam essa presença particularmente real e impressionante. Mas houve um momento, durante a sessão, que me tocou de uma forma especial. Algumas das pessoas sentadas à minha frente começaram a cantar algumas das canções à medida que estas surgiam no filme.

E pensei que talvez não pudesse existir melhor testemunho da força da música de Carlos Paião: décadas depois, as suas canções continuam vivas, continuam a ser reconhecidas e, sobretudo, continuam a ser cantadas. Também a atriz Laura Dutra merece uma palavra de destaque pela forma como dá vida a Zaida. A sua interpretação acrescenta uma dimensão muito humana à história e permite-nos conhecer melhor a mulher que teve um papel tão importante na vida do cantor. E a própria médica Zaida Cardoso teve um papel fundamental para que este filme pudesse acontecer, contribuindo para que a história de Carlos Paião pudesse finalmente chegar ao grande ecrã.

Como já referi, “Playback” é também uma viagem no tempo. Uma viagem que nos devolve os grandes êxitos de Carlos Paião e que, pelo menos no meu caso, desperta memórias de infância.

Lembro-me particularmente de ouvir “Cinderela”, uma canção que continuo a adorar e que, tantos anos depois, mantém intacta a sua magia. A banda sonora do filme, a cargo de The Legendary Tigerman, revisita algumas das canções mais emblemáticas de Carlos Paião, dando-lhes novas sonoridades e uma nova vida. O filme inclui ainda “Lisboa Lisboa”, um tema inédito que Carlos Paião nunca chegou a interpretar e que é apresentado ao público, pela primeira vez, nesta longa-metragem.

Na minha opinião, estamos perante uma verdadeira obra biográfica, que vai muito além da música e dos grandes sucessos. O filme mostra-nos também os sonhos de Carlos, as suas inquietações, algumas dificuldades que enfrentou e as incertezas que fizeram parte do seu percurso. E aborda ainda os rumores e os boatos, muitos deles horríveis, que surgiram depois da sua morte. Talvez esses boatos tenham surgido pelo facto das pessoas recusarem que aquele jovem, tão cheio de vida e romântico, tenha partido. É como se, de alguma forma, ninguém quisesse acreditar que ele tivesse partido e quisesse apenas acordar de um pesadelo!

O filme tem também muitos momentos de humor e conta com um elenco de grande qualidade, com excelentes interpretações que tornam a experiência ainda mais especial.

Por tudo isto, deixo o meu apelo: vão ao cinema e vejam “Playback”. É importante apoiarmos o cinema português e contribuirmos para que as salas continuem cheias. Ver um filme numa sala de cinema é uma experiência única, muito diferente daquela que temos quando assistimos a um filme em casa. Há o grande ecrã, o som, o ambiente da sala e, sobretudo, a experiência de partilhar aquele momento com outras pessoas. E quando escolhemos um filme português, estamos também a apoiar todos os profissionais- atores, realizadores, argumentistas, técnicos e tantos outros- que, apesar das dificuldades e dos desafios que continuam a existir para fazer cinema em Portugal, não deixam de criar obras de enorme qualidade. Temos excelentes filmes portugueses, grandes atores, realizadores talentosos e equipas extraordinárias. “Playback” é mais um exemplo disso. Por isso, os meus parabéns a todo o elenco e a toda a equipa que tornou este filme possível. Agora, cabe também ao público fazer a sua parte: encher as salas e continuar a apoiar o cinema português.

E como escreveu há dias Tozé Brito, não é preciso ter conhecido Carlos Paião ou sequer conhecer profundamente a sua história para ir ver este filme. O que posso garantir é que quem já o conhecia e cresceu com as suas músicas vai, provavelmente, apaixonar-se ainda mais por ele. E quem não o conhecia vai sair da sala a querer conhecê-lo melhor e a ouvir as suas canções. Por isso, vão ao cinema! E continuem a cantar e a dançar com o Carlos!

 

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