
Portugal foi o primeiro país do mundo a aplicar o questionário SHAPE, um instrumento de avaliação de saúde sexual criado pela Organização Mundial de Saúde em 2023. O estudo, coordenado por Pedro Nobre, professor da Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, envolveu 2.010 participantes numa amostra representativa da população portuguesa. Os resultados, divulgados em setembro de 2024, revelam um retrato que merece atenção: cerca de 50% dos portugueses reportam níveis baixos de satisfação com a vida sexual, e 20% afirmam que as suas dificuldades sexuais lhes causam sofrimento significativo.
Os problemas mais frequentes incluem dificuldades de ejaculação (11,7%), dificuldades de orgasmo feminino (11,3%), dor sexual nas mulheres (10,7%), baixo desejo (10,6%) e disfunção eréctil (10,4%). São números demasiado altos para continuarem a ser tratados como assuntos privados que não merecem atenção pública.
Metade dos portugueses está insatisfeita. E quase ninguém fala disso. Portugal foi o primeiro país do mundo a aplicar o questionário SHAPE, um instrumento de avaliação de saúde sexual criado pela Organização Mundial de Saúde em 2023. O estudo, coordenado por Pedro Nobre, professor da Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, envolveu 2.010 participantes numa amostra representativa da população portuguesa. Os resultados, divulgados em setembro de 2024, revelam um retrato que merece atenção: cerca de 50% dos portugueses reportam níveis baixos de satisfação com a vida sexual, e 20% afirmam que as suas dificuldades sexuais lhes causam sofrimento significativo. Os problemas mais frequentes incluem dificuldades de ejaculação (11,7%), dificuldades de orgasmo feminino (11,3%), dor sexual nas mulheres (10,7%), baixo desejo (10,6%) e disfunção eréctil (10,4%). São números demasiado altos para continuarem a ser tratados como assuntos privados que não merecem atenção pública.
O silêncio tem consequências
O tabu à volta da sexualidade não é apenas uma questão cultural. Tem custos reais na saúde. Segundo dados da Direção-Geral da Saúde, o número de casos notificados de sífilis e gonorreia em jovens dos 15 aos 24 anos multiplicou-se por onze entre 2013 e 2023, embora parte do aumento reflicta também uma maior capacidade de diagnóstico e notificação. Em 2024, Portugal registou uma das taxas mais altas de sífilis na Europa, com 20,7 casos por 100 mil habitantes.
O próprio estudo SHAPE revela que 13,7% dos portugueses nunca se masturbaram e 16,6% nunca praticaram sexo oral. Mais do que dados sobre práticas, são indicadores de uma relação limitada com o próprio corpo e com a exploração da intimidade. E quando quase 35% da população não teve qualquer atividade sexual nas quatro semanas anteriores ao inquérito, o panorama aponta para algo mais profundo do que falta de oportunidade: aponta para desconexão, desconforto e, em muitos casos, ausência de ferramentas para lidar com o tema.
Educação sexual: obrigatória na escola, inexistente depois
Portugal tem educação sexual obrigatória no ensino básico e secundário desde 2009. É um avanço real. Mas a investigação mostra limitações: segundo um estudo publicado na revista Sage Journals por Rodrigues e colaboradores (2024), o modelo português segue uma abordagem “biológico-higienista”, centrada na anatomia, na reprodução e na prevenção de riscos. Fala-se de contracepção e de doenças, mas pouco se fala de prazer, de consentimento relacional, de comunicação entre parceiros ou de autoconhecimento.
E depois da escola, o diálogo desaparece. Não há programas de educação sexual para adultos. O tema raramente surge nas consultas de medicina geral. Para a maioria dos portugueses, a fonte de informação sobre sexualidade após os 18 anos é a internet, com toda a qualidade variável que isso implica.
O que está a mudar (apesar do tabu)
Se os dados mostram um problema, mostram também que algo está a mexer. O mercado de brinquedos sexuais em Portugal registou um crescimento superior a 600% entre 2019 e 2020, segundo dados citados pela Inspiring Life e pelo Hipersuper. A nível global, o setor de bem-estar sexual foi avaliado em cerca de 25 mil milhões de dólares em 2024, com o e-commerce a representar mais de 64% das vendas, de acordo com a Grand View Research.
A procura por vibradores lidera as vendas do setor, o que não surpreende: são produtos acessíveis, com benefícios documentados na literatura de saúde sexual, e cada vez mais recomendados por profissionais de saúde como ferramenta de autoconhecimento. Mas a diversificação vai mais longe. A normalização do acesso a informação permitiu que produtos mais específicos, como o vibrador anal, deixassem de ser território de nicho e passassem a ser escolhas informadas de quem procura explorar a intimidade com segurança e conhecimento.
Grande parte desta mudança deve-se à digitalização. Comprar numa sex shop online elimina a barreira do constrangimento que ainda existe na loja física. Permite pesquisar, comparar e decidir sem julgamento. E, em muitos casos, oferece informação que compensa a lacuna deixada pela ausência de educação sexual na vida adulta.
O estudo SHAPE, aliás, aponta nessa direção: Pedro Nobre defende a criação de um Observatório de Saúde Sexual em Portugal, que permita monitorizar indicadores e fundamentar políticas públicas. Até lá, a mudança está a ser feita, em grande parte, pelos próprios portugueses, que procuram informação e recursos por conta própria. O tabu ainda existe. Mas começa a custar menos do que custava.
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