Universidade de Aveiro (arquivo).

Há um paradoxo silencioso a instalar-se nas nossas universidades. Estudantes que chegam com ambição, docentes que chegam com vocação e, no entanto, em algum ponto desse encontro, algo se vai desgastando. Não de forma visível. Mas de forma real. Este paradoxo tem nome: riscos psicossociais. E tem, finalmente, investigação que o documenta.

Por Cristiana Pinheiro *

A psicologia da saúde ocupacional demonstrou que as condições em que trabalhamos e estudamos não são neutras. A diferença entre um ambiente que nos constrói e um que nos desgasta não reside no esforço que colocamos, mas nas exigências que enfrentamos e nos recursos que temos para lhes responder. É nesta dinâmica que se joga muito daquilo que somos, dentro e fora das instituições.

Para os estudantes, os dados são difíceis de ignorar: cerca de um terço dos universitários preenche critérios para pelo menos uma perturbação mental ao longo do ano académico. Em Portugal, a ansiedade, o esgotamento e os sintomas depressivos têm crescido. Quando as exigências são excessivas e o apoio escasseia, quando falta clareza, reconhecimento, sentido de pertença, o burnout aumenta de forma sistemática e previsível.

Para os docentes, o panorama é igualmente exigente, mas menos discutido. Ensino, investigação, orientação, gestão, métricas em permanente atualização, uma multiplicidade de papéis que, sem autonomia, apoio e reconhecimento genuíno, abre caminho ao esgotamento. E quando um docente esgotado entra numa sala de aula, não é só ele que sente o peso. Os estudantes sentem-no também.

Há ainda um fenómeno que a investigação identifica em ambas as populações: a síndrome do impostor. A sensação persistente de não merecer o lugar que se ocupa, de que o sucesso é fruto do acaso, e de que, mais cedo ou mais tarde, alguém vai perceber. É surpreendentemente comum em contextos académicos de elevada exigência e quase sempre ocorre em silêncio.

O que a investigação nos pede, enquanto instituição, é que deixemos de tratar estes fenómenos como problemas individuais. O burnout não é fraqueza. A síndrome do impostor não é modéstia. São respostas humanas a condições que, quando mal calibradas, nos desgastam, independentemente da dedicação que colocamos no que fazemos.

A boa notícia é que estas condições são modificáveis. Ambientes que promovem autonomia, apoio social e reconhecimento genuíno são ambientes que protegem. Que permitem não apenas a ausência de sofrimento, mas a presença ativa de bem-estar e de propósito.

Cuidar das condições em que se aprende e se ensina não é um luxo. É uma responsabilidade institucional. E uma forma de levar a sério aquilo que uma universidade tem de mais precioso: as pessoas que a habitam.

* Docente do ISCA-UA. Artigo publicado no site UA.pt.

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