
No dia 10 de junho assinala-se o Dia Mundial da Arte Nova. Em Aveiro, a data tem particular significado: a cidade conserva exemplos expressivos deste movimento artístico em Portugal e é a única cidade portuguesa representada na Réseau Art Nouveau Network.
Por João Ferreira-Santos e Lúcia Pombo *
O movimento artístico Arte Nova afirmou-se como um momento de transformação técnica, industrial e urbana. Procurou aproximar a arte, tecnologia e saberes tradicionais, materiais e ornamentação à vida quotidiana, sendo associada à ideia de obra de arte total. Não se ficou pelas fachadas, habitando os interiores, reconfigurando o mobiliário, dando novas funcionalidades ao metal, ao vidro, inovando a utilização da cerâmica, nomeadamente quanto uso do azulejo policromado por questões de salubridade, até aos objetos mais inovadores da época como o cinematógrafo, gramofone ou o daguerreótipo, antepassado da máquina fotográfica “atual”.
Em Aveiro, esta linguagem internacional ganhou uma expressão regional. A relação com a ria, a luz, a cor, a tradição cerâmica e os motivos inspirados na Natureza ajudam a estabelecer uma identidade própria. Os azulejos produzidos na Fábrica de Sacavém e, localmente, na Fábrica da Fonte Nova, presentes em painéis e frisos ainda visíveis em vários edifícios, mostram como a Arte Nova foi reinterpretada a partir de materiais e sensibilidades locais.
E é neste ponto que a sua atualidade se torna mais clara. Num tempo em que a Sustentabilidade exige (re)nova(da)s formas de relação com a natureza e com o espaço comum, a Arte Nova recorda-nos que a cidade também comunica valores. Assim, folhas, flores, animais e formas orgânicas não são apenas ornamento. Podem educar o olhar para o efetivo reconhecimento das ligações entre património construído, património natural e vivências do quotidiano.
Existe ainda outro paralelo com o presente. Tal como a Arte Nova procurou uma linguagem para a modernidade industrial, hoje somos desafiados pela inteligência artificial, por novas realidades, como a Aumentada ou a Virtual e pelas plataformas digitais. No entanto, a questão mantém-se: como inovar sem perder memória, beleza, responsabilidade e sentido de lugar?
A novidade da Arte Nova de Aveiro continua, afinal, na sua capacidade de continuar a educar o olhar, permitindo-nos constatar que o futuro não se constrói apenas com tecnologia, mas também com cultura, natureza e cuidado pelos lugares onde vivemos.
* Investigadores do Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro. Artigo publicado originalmente no site UA.pt.
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