“O objetivo é criar uma marca, que seja diferenciadora e não se perca”

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Sal de Aveiro.
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A Associação Comercial de Aveiro (ACA), entidade promotora do projeto ‘Sal de Aveiro’, começa a ver os primeiros frutos de vários anos a trabalhar para inverter o declínio da produção de sal artesanal. Entrevista com o presidente, Jorge Silva, para fazer o ponto de situação e antecipar mais um worshop sobre a atividade.

Qual é a vossa pretensão com este projeto ‘Sal de Aveiro’ ?
Estamos a tentar potenciar algo que é a marca da cidade. Se há algo que marca a cidade são as salinas…

O que tem sido mais difícil ?
O levantamento é a parte mais complicada. Aí o papel da Universidade de Aveiro foi preponderante.

É quase como redescobrir as marinhas ?
Sem dúvida. Sem ter as marinhas devidamente cadastradas não conseguimos ter a certeza do que estamos a tratar. É o ponto de arranque do projeto. Depois queremos potenciar a marca, que temos registada. Para que todas as pessoas que produzem, comercializam, fazem deste sal algo identitário da nossa região, se sintam defendidos.

Jorge Silva, presidente da Associação Comercial de Aveiro.

A pressão turística trouxe oportunidades.
Sim, mas andamos a trabalhar neste projeto há sete anos. Agora veio à tona. Temos acompanhado este retorno dos privados às marinhas, olhando-as não apenas para a produção de sal, embora seja indispensável claro.
A Universidade deu um leque muito interessante de diferenciação, desde o uso ligado à higiene ou à beleza, passando pela saúde. Mas também à observação de aves, pesca de recreio, à mera visitação…existe muito que fazer.
E com uma particularidade muito interessante, que destacámos na apresentação à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Centro (CCDRC): as marinhas da cidade de Aveiro ficam do outro lado da estrada. Basta atravessar. Não há outra cidade, tirando eventualmente Tavira, com este potencial à mão. Além disso, se nos afastarmos mais alguns metros, ficamos no meio de uma zona lagunar.

“Existem privados a gastar muito dinheiro mesmo em melhorar as marinhas”

Vão surgindo atividades a acompanhar este trabalho do projeto ?
Existem privados a gastar muito dinheiro mesmo em melhorar as marinhas.
É muito importante destacar o trabalho de benchmarking que fizemos, para conhecer o que sucede lá fora, em zonas com produção de sal, por exemplo, na Bretanha, onde é muito forte. Vendem sal a quase um euro, o nosso anda pelos sete cêntimos.
Temos um caminho ainda longo a percorrer, trabalhar isso muito bem, para valorizar o nosso sal marinho, dar valor ao que temos, que não pode competir em prateleiras de supermercado. É diferente, pelo teor de humidade muito bom, por exemplo. Temos de posicionar o nosso sal de forma distinta no mercado.

Os proprietários acordaram para as marinhas ?
Sim. Aparece muita gente interessada. Nem sempre é fácil de fazer algo, porque existem dificuldades, muitas estão nas famílias, há muitos herdeiros. Vão falar com os primos… Há gente a vende e a comprar.
Mas isto vai demorar. Queremos estar mais presentes, temos mais certezas do que vamos fazer.
Surgem ideias muito engraçadas, é louvável. Mas não podemos esquecer o que nos distingue, que é o sal. Sem risco de descaracterização de algo que é histórico. Sem parques temáticos. É preciso bom senso. Criámos duas plataformas na internet. Convidamos quem tem marinhas e queira arrendar, vender, concessionar ou algo para fazer com o sal a publicitar. O objetivo é criar uma marca, que seja diferenciadora e não se perca.
Achamos fantástico o que já está a ser feito, sem deixar de ter alguns cuidados. Não existe turismo vinícola sem produção de vinho…
O projeto tem vindo a promover outras oportunidades, gente que se interessa pela produção de salicórnia outros que propõem máquinas para a apanha, enfim…é curioso.

Workshop organizado pelo projeto ‘Sal de Aveiro’.

“A problemática maior aqui é saber quem manda em quê”

Existem obstáculos difíceis de ultrapassar quando se lida com este tipo de território, de jurisdições distintas, proteções?
A problemática maior aqui é saber quem manda em quê, onde e quando. É a parte complicada. Vamos fazer um novo workshop a 26 de setembro, com a presença do presidente da Câmara. A pedido de vários interessados, queremos ter agora também representadas as entidades que licenciam. Já falámos dos investimentos, agora a grande dificuldade é burocrática, dos
domínios públicos, etc. Precisamos de quem nos possa elucidar, para evitar as dificuldades.

Estão a surgir negócios novos ?
Sim, estão a aparecer. Marcas que são criadas para comercializar sal. Procuramos que usem a marca ‘Sal de Aveiro’ como denominador comum.

Qual o rumo do projeto ?
Queremos o máximo de marinhas em atividade, empresas e empregos, investimento e postos de trabalho, atrair clientes. Posicionar o sal de Aveiro no mercado de forma diferenciada, na área gourmet, por exemplo, mas também na vertente da saúde. Poderemos ter aí oportunidades de negócio interessantes. Perceber que é sal de Aveiro, sem dúvidas. Podem pagar mais, mas é pelo valor acrescentado que tem. Vamos trabalhar isto calmamente para chegar a resultados.

“Queremos que haja algo que perdure e a especulação, por vezes, não ajuda”

As marinhas podem ser alvo de especulação imobiliária ?
É uma pergunta difícil. Existe muita oferta, muitas abandonadas e alagadas. Queremos que haja algo que perdure e a especulação, por vezes, não ajuda. Não queremos que se volte a constatar o declínio.
Produzir sal apenas não é lucrativo. Tem de haver uma série de produtos. A marinha agora trabalha-se mais meses durante o ano, tem várias atividades. Os produtos, a flor de sal e a salicórnia, e outros, como a aquacultura, sem esquecer as visitas ou os banhos. Pode sustentabilizar o negócio. É uma atividade também muito ligada aos valores históricos e culturais.
Os operadores que surgiram têm boas perspetivas e os negócios parecem interessantes.
O sal de Aveiro tem de ser identificado, à distância, pela sua identidade e história, um espaço conquistado ao mar pelo homem marnoto. Mil anos de história. Uma imagem que pode ser um pouco romântica, mas é importante para transmitir o que se pretende.

Projeto ‘Sal de Aveiro’.

Projeto pode acompanhar 12 ideias de negócio

O projeto tinha, em julho, 16 marinhas disponíveis para arrendamento que cobrem uma área total de 974.988 m2. A equipa técnica iniciou o acompanhamento especializado aos empreendedores, sendo que tem disponibilidade para o fazer a 12 interessados em iniciar um negócio relacionado com as marinhas.

 

Mais informações:
Facebook: https://www.facebook.com/SaldeAveiro
Site: https://saldeaveiro.pt
Booking Marinhas: http://bookingmarinhas.pt

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