O medo como doença, a comunicação como instrumento de medo

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Onde está o bom-senso? Para quê esta torrente de notícias, de números, tantas vezes com um ar sofrido e um tom paternalista, e acompanhadas por expressões como: “os números estão a disparar”, “o cenário não é bom”, “esta doença é potencialmente fatal”, “temos a segunda vaga”, “os serviços de saúde vão entrar em colapso”, etc., etc.

Por Luís Gouveia Andrade *

Temos ocupado grande parte dos últimos sete meses a gerir as nossas vidas, a nossa saúde, o nosso trabalho, as nossas famílias em torno desta nova infecção.

Temos lido, reflectido, opinado sobre os caminhos a seguir, sobre as consequências, boas e más, de cada uma das opções tomadas, não se chegando nunca a um consenso, provavelmente porque esse consenso é inatingível.

Não me quero repetir sobre o impacto desta realidade na saúde, nas outras doenças, na economia, no desemprego (pronto, já me repeti…) mas existe algo que, enquanto médico, no dia-a-dia das consultas, no contacto com centenas de doentes, vejo que se está a tornar cada vez mais intenso, mais denso, mais preocupante.

Escrevo isto na sequência de uma consulta logo no início da manhã de hoje em que uma senhora de 89 anos veio ser consultada por mim e me confessou que ontem esteve quase para desistir depois de ouvir as notícias. Ficou tão assustada que se sentiu mal, com suores frios e quase a desmaiar. Trata-se de uma senhora com problemas importantes de visão e cujo controlo regular é crucial e que, se não fosse a intervenção do filho, teria ficado em casa sem ser consultada e a ser atormentada pelas constantes notícias.

Juntei este dado a outros recentes e que são transversais a todas as idades. Homens de 30-40 anos a pedirem apoio psicológico, a sentirem fobias que nunca sentiram, a terem medo de estar junto de outras pessoas, a não quererem retomar o seu trabalho presencial, mães em pânico (esta é a expressão tantas vezes usada) por levarem os seus filhos à escola, idosos assustados, isolados e proibidos pelos filhos de saírem de casa…

Tudo isto está a crescer e está a causar brechas na nossa sociedade, no nosso modo de vida e na nossa saúde.

Onde está o bom-senso? Para quê esta torrente de notícias, de números, tantas vezes com um ar sofrido e um tom paternalista, e acompanhadas por expressões como: “os números estão a disparar”, “o cenário não é bom”, “esta doença é potencialmente fatal”, “temos a segunda vaga”, “os serviços de saúde vão entrar em colapso”, etc., etc.

Onde está o enquadramento, a proporção, a razoabilidade? Onde está a contextualização científica e epidemiológica?

Onde está a responsabilidade que deriva de se chegar a tantas pessoas, com graus tão distintos de diferenciação, com realidades tão diversas, e de “massacrá-las” e “assustá-las” a ponto de lhes fazer sentir medo no mais visceral dos sentidos e de as impedir de viver, de respirar e de se tratar?

Não me recordo de ter tanto sentido os efeitos nefastos da comunicação, na qual sempre vi um referencial de informação, de opinião, de liberdade e de responsabilidade. Esta pandemia tem diluído estes princípios a ponto de ver jornais de referência com primeiras páginas catastrofistas e totalmente desenquadradas da sua linha editorial.

Poderemos argumentar que tempos novos requerem estilos de comunicação novos, mas essa comunicação não se pode dissociar dos efeitos que tem (e que sabe que tem), sobre o público. Para o bem e para o mal. E, nesse sentido, devia ser feito um esforço de contenção, de adequação do tom, de pedagogia.

Tudo isso tem faltado. E as pessoas estão a sofrer, estão a ficar mais doentes e estão com medo.

Disse a esta minha doente hoje de manhã: “Sabe o que deve fazer? Deixe de ver notícias…”

E eu próprio, e penso que todos nós, vamos aos poucos fazendo isso. É bom estar informado. É importante estar informado. Mas o que está a acontecer é mais do que isso.

A comunicação social, intencionalmente ou não, está a moldar comportamentos, está a assumir posições paternais perante o seu público, está a fazê-lo sentir-se mal e com medo.

Está também a estimular o conflito social, ao colocar pessoas em diferentes lados da barreira (eu uso máscara, tu não usas) e ao tornar-nos mais isolados e desconfiados.

Não quero que fique destas palavras a noção de que sou contra a informação. Nunca o fui. Nunca o serei.

Fica somente uma crítica que desejo construtiva e que contribua para uma melhor informação e não somente mais informação.

A comunicação tem uma influência e um alcance enormes. É importante que saiba, neste caso e noutros, o impacto do seu trabalho para que, em função dele, possa repensar estratégias, estilos e conteúdos.

Os médicos têm igualmente acesso a um universo enorme de indivíduos, doentes e saudáveis, e ouvem e sentem o modo como se está a reagir a este modelo comunicacional específico. Deixo aqui o exemplo da minha experiência que pressinto que está longe de ser a única.

E deixo também aqui o meu alerta. Para que a Comunicação não se torne instrumento de medo. Porque o medo causa doenças e agrava doenças. Porque o medo mata.

* Médico Oftalmologista. Director Geral da InfoCiência. Artigo publicado originalmente no site Health News – Informação em saúde.

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