
A inteligência artificial (IA) tornou possível gerar, em segundos, textos, imagens ou código que antes exigiam pesquisa, análise, trabalho intelectual e tempo. Para as universidades, onde transmitir, produzir e validar conhecimento está no centro da missão, esta transformação coloca desafios muito concretos.
Por Artur Silva *
Aprender é mais do que produzir um resultado. Implica compreender, apropriar-se do conhecimento e ser capaz de o questionar. Também a autoria se tornou mais difícil de determinar: nem sempre é claro o que foi feito por quem apresenta o trabalho e qual foi o papel da IA. É, por isso, necessário repensar o processo ensino-aprendizagem, como ensinamos, o que e como avaliamos, dando maior importância à capacidade de pensar criticamente, relacionar conhecimentos e formular boas perguntas.
Na investigação, a escala é outra. O AlphaFold mostrou como a IA pode ajudar a resolver problemas científicos de enorme complexidade, com aplicações que vão do desenvolvimento de fármacos ao estudo das alterações climáticas e à compreensão dos mecanismos da vida. Na Europa, o RAISE está a reunir capacidade computacional, dados e talento ao serviço da ciência. Estas possibilidades extraordinárias aumentam também a exigência de compreender e validar o processo que conduz a cada resultado e de tornar clara a contribuição de quem nele participou.
A tecnologia está a avançar, no entanto, mais depressa do que a reflexão sobre os seus usos. Entre a adoção acrítica e a resistência defensiva, é preciso experimentar, aprender e criar critérios.
Se o resultado revela cada vez menos sobre o processo que lhe deu origem, mais exigentes temos de ser na avaliação das aprendizagens, na validação dos resultados e na atribuição da autoria e do mérito.
É esse o caminho que estamos a construir na Universidade de Aveiro. Aprovámos um referencial para avaliação das aprendizagens na era da inteligência artificial, criámos uma comunidade de prática, com mais de 120 docentes, e disponibilizamos formação, recursos e espaços de experimentação. Quisemos também conhecer e pôr em comum o que já está a ser feito. No encontro “IA na UA. Onde estás?” foram apresentadas 40 iniciativas no ensino, na investigação e na modernização administrativa, em várias fases de desenvolvimento, entre um conjunto mais amplo de propostas submetidas. O objetivo é agora transformar todas estas experiências dispersas em conhecimento coletivo.
A IA abre possibilidades que as universidades não podem ignorar. Aproveitá-las, preservando a qualidade da aprendizagem, o rigor da investigação e a integridade académica é o desafio que temos pela frente.
Aprender é mais do que produzir um resultado. Implica compreender, apropriar-se do conhecimento e ser capaz de o questionar.
* Reitor da Universidade de Aveiro. Artigo publicado no site UA.pt.
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