
O Doutor Francisco Augusto Regala nasceu em 1871 na cidade de Aveiro, mas foi para Cabo Verde, por imposição de serviço militar inicialmente e depois por opção, passou a viver definitivamente nesta ilha de São Vicente, tendo constituído família e aqui faleceu, em 11 de Abril de 1937, contando 66 anos.
Por Fernando Ferreira Dias *
O Doutor Regala, como era conhecido, chegou muito novo ainda, a Cabo Verde, no primeiro quartel do seculo XX, para exercer funções de médico, graduado em oficial subalterno do Exército, como era uso e costume naqueles tempos. O jovem tenente viria a atingir o alto posto de coronel, e nessa qualidade, como oficial de patente mais elevada residente na cidade do Mindelo quando da revolução do “Capitão” Ambrósio, (que mais não era que um carpinteiro, amante da liberdade).
No mês de junho de 1934, desempenhou, o Dr. Regala junto do povo amotinado e das autoridades civis e militares locais, uma ação apaziguadora de ânimos, que evitou o agravamento da sublevação e, possivelmente, contribuiu para salvar vidas, pois apenas se verificou um morto. Era o responsável pela saúde da Guiné e Cabo Verde, pois havia um quadro único.
Mas a sua coroa de glória foi quando do horroroso deflagrar da peste bubônica que flagelou a ilha de São Vicente, entre 1920 a 1921, um surto epidêmico, de proporções graves, generalizou se dentro de pouco tempo e ameaçou subverter a ilha numa onda de morte. O bacilo que causa essa doença, descoberto em 1894, em Hong Kong, pelo microbiologista francês Alexandre Yersin, chegou à ilha pelo Porto Grande, que acabou por ser interdito à navegação. O Liceu Infante D. Henrique também fechou a suas portas. Havia pânico. Inicialmente não se tinha identificado a doença. Ocorriam mortes inexplicáveis até que a atenção dos técnicos de saúde foi chamada para o aparecimento de intumescência dos gânglios linfáticos da virilha das vítimas. Daí ao diagnóstico correto foi um passo: a peste bubónica. A parte dura foi fazer se o controle do mal, travando a sua propagação.
Produziu mais do que humanamente seria de esperar: ministrou socorros aos atingidos, presente à cabeceira dos moribundos e procurou, ao mesmo tempo, neutralizar a marcha acelerada do flagelo. Com os fracos recursos médicos e medicamentosos existentes então, operou um verdadeiro milagre. E conseguiu debelar a peste.
Em reconhecimento foi-lhe concedida pelo governo de Portugal o Colar de Santiago e respetiva Roseta, que foi adquirido por subscrição pública do povo do Mindelo.
Contam que chegava a dar consulta a gente pobre, em plena rua, e não era raro vê lo sentado, nas suas horas de lazer, à porta do “CENTRAL”, uma pastelaria chique da época. Exercia as suas funções de médico num verdadeiro sacerdócio. Era um verdadeiro “João Semana”.
Após a sua morte, encomendou-se em Lisboa o busto do saudoso e benemérito facultativo. Este busto ainda lá está, no largo fronteiro à avenida que conduz ao Hospital Velho, casa que foi palco de tantas ações meritórias praticadas pelo DOUTOR FRANCISCO AUGUSTO REGALA. O busto atesta, sem dúvida, o reconhecimento da ilha de São Vicente. Mas é uma parte, – só uma pequena parte -, das homenagens que se lhe devem, por direito próprio.
Assim se mostra um Aveirense que levou o nome de Aveiro a um lugar cimeiro.
* Série de publicações ‘Personagens que fazem Aveiro’. Artigo publicado em Aveiro na História.
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