“Falamos de betão em Aveiro, não de obra social” – Nelson Peralta (BE)

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Nelson Peralta (BE).
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Nelson Peralta, 39 anos, é o cabeça de lista do Bloco de Esquerda em Aveiro nas próximas eleições autárquicas. A terceira tentativa consecutiva do biólogo para entrar na vereação municipal. Entrevista com o primeiro candidato a apresentar-se a votos para a Câmara governada atualmente pela maioria PSD-CDS-PPM (c/áudio).

Pergunta – Será a sua terceira candidatura à Câmara. As pessoas poderão ver isso como o candidato natural do Bloco em Aveiro ou um partido que não tem outra figura local a quem entregar a tarefa.

Resposta – A candidatura do Bloco é feita de um coletivo. Elegemos sete pessoas em 2017. Temos feito a rotação dos eleitos com bastante visibilidade. Foi do coletivo que surgiu a ideia, depois a proposta e, por último, a votação por unanimidade de ser eu. Deve-se a uma questão: há quatro anos tivemos o melhor resultado de sempre e ficámos perto da eleição de um vereador. É muito importante um vereador, pois permite ‘rasgar’ qualquer maioria absoluta que possa surgir. Estarei articulado com os 200 outros candidatos.

Resultados eleitorais para a Câmara de Aveiro em 2017.

P – 2017 foi o segundo mandato da atual maioria de direita. Já era diferente do primeiro, que foi mais sufocante, financeiramente, e de execução de obras. As eleições de 2021 serão diferentes ?

R – Toda a eleição tem um contexto. Ao longo destes quatro anos, o PSD – CDS perdeu força. Ribau Esteves perdeu também força no concelho agora para 21. A nossa expetativa é melhorar o resultado do Bloco e, com isso, eleger mais pessoas nos orgãos autárquicos e todas as Juntas.

P – A mobilização, a preparação eleitoral, os contactos e elaboração de propostas, recorrendo mais ao online, devido às cautelas pandémicas, condiciona muito ?

R – É claro que é uma dificuldade acrescida. Tem a ver com toda a movimentação social que tínhamos no terreno. Ao longo de quatro anos tínhamos várias iniciativas, como a primeira marcha LGTBI que reuniu 600 pessoas, das maiores do País. Os protestos do encerramento do centro saúde de Nossa Senhora de Fátima e marchas lentas no Mamodeiro, devido ao cruzamento da ‘Bica’. Todos os protestos que vinham da privatização dos transportes. Estes movimentos sociais é Aveiro a querer respirar. Percebemos que há pessoas a levantarem-se, como o protesto contra o parque subterrâneo do Rossio, a pedir uma governação e uma visão diferente que a maioria tem. Continuam a existir, apesar de tudo, é uma grande bolha de oxigénio em Aveiro que permitirá a projetos mais à esquerda como o Bloco crescer.

P – Acha que será bem aceite o facto de ser deputado e agora vir a acumular com a candidatura, querer ser autarca? Não irá ser mal interpretado pelo eleitorado que não decide apenas pelo partido ?

R – Julgo que não. Tenho estado envolvido na política autárquica desde a primeira candidatura do Bloco em 2005, passei pela Assembleia Municipal e envolve-me sempre no trabalho autárquico. Foi eleito deputado com um resultado grande no distrito. As coisas são perfeitamente compatíveis. Algum do trabalho como deputado também parte do conhecimento que tenho de Aveiro, como a polémica hoje central na discussão de todos os partidos, que é a construção dos 65 apartamentos a custos controlados na antiga Luzostela. Temos de levar a realidade de cada concelho para lá, não há aí nenhuma confusão. Nem aproveitamento eleitoral. Estando tão perto de eleger um vereador entendemos que deve ser o mesmo candidato, obviamente enquadrado num coletivo.

P – O manifesto autárquico aponta para continuidade dos grandes temas de 2017 e até anteriores.

R – Há uma continuidade de temas, porque temos olhado para um conjunto de problemas que foram negligenciados pela direita no poder ou mesmo agravados.
É curioso que o parque de estacionamento do Rossio não é novidade desta maioria. Élio Maia anunciou o mesmo. Ainda por cima, o modelo também envolvia privados. Mostra-nos que Ribau Esteves, o PSD e CDS, são autarcas de um modelo ultrapassado, o autarca do betão, que não consegue fazer qualquer obra social, olha para a Câmara como uma betoneira para meter betão algures. Mesmo nesse modelo do qual discordamos, Ribau Estes é já um autarca ultrapassado. Uma das suas grandes ideias foi um aquário para bacalhaus em Ílhavo. Chega a Aveiro e a sua grande ideia é um estacionamento dentro da cidade. Mesmo no seu conceito de autarca de betão, Ribau Esteves perdeu imensa imaginação.
Há todo um conjunto de obra social por fazer. No betão, a parte da habitação é um problema sério em Aveiro. Tem ao longo dos últimos anos ver subir drasticamente o preço das casas, as pessoas saem do centro urbano porque não têm dinheiro ou vivem com um grande peso nas despesas familiares com os encargos elevados de rendas. Isso tem sido agravado. Ainda há pouco tempo foram vendidos lotes no Plano de Pormenor do Centro sem nenhuma contrapartida social e contou com o voto favorável do PS. É uma zona vista só para ricos.
Uma das nossas grandes ideias para esta campanha é que 25% da nova construção seja destinada a arrendamento a custos controlados.
O centro da cidade é o centro da especulação, o próprio presidente da Câmara diz que nunca viu tanta gente a ganhar dinheiro em Aveiro. Isto é uma frase marcante.
Houve um reorientar da cidade para mono cultivo do turismo e aí cabe o estacionamento do Rossio para as unidades hoteleiras e meter em cima uma praça de eventos, cabe a reorganização da Avenida Lourenço Peixinho para fazer uma praça de eventos junto à antiga capitania. Isto tem consequências, que é o agravar das rendas, do preço da vida normal de quem vive aqui, acima de tudo dirigir toda a economia e investimento para um único sector.

P – O turismo gerou empregos, oportunidades de investimento, licenças com receitas importantes…

R – O tema das receitas do turismo é interessante. O Bloco reivindicou durante muitos anos a cobrança dessas licenças, dos passeios de barcos. Mas aquilo que nós queremos debate até com esta pandemia, que é factor novo destas eleições, é se temos uma economia suficientemente resiliente para as crises. Aveiro centrou todas as suas fichas na economia do turismo com problemas sociais sem estarem resolvidos. Cresceu o alojamento local na zona Beira Mar, o preço da habitação subiu na zona de pressão imobiliária. Entendemos que é necessário definir essa zona, intervir e limitar o alojamento local. Há também verbas no investimento público que não mexe no edificado. A Avenida Lourenço Peixinho está a ser recuperada apenas no espaço público, o seu principal problema não era o chão, era o edificado. Preocupa-nos a gentrificação. Investimento em espaço público em edificado degradado e as políticas de habitação não acompanha é a subida drástica dos preços e a expulsão de moradores, normalmente mais idosos, para surgirem casas luxo. O motor da especulação imobiliária é o investimento público, que não acautelou políticas sociais.
Ainda sobre o turismo, criou-se emprego à boleia de investimento público. Mal chegou a crise, o primeiro sector afectado foi o turismo, onde havia imensa percaridade laboral, mesmo em empresas licenciadas pela Câmara. Sem políticas sociais, Aveiro ficou mais desprotegido.

P – A Câmara anunciou o reequilíbrio financeiro, tem uma larga ‘frente’ de obras e dá regularmente apoios municipais. Que argumentos contra estes factos ?

R – Existem marcas, também, de um enorme castigo à população Aveiro. Tem sido defendido como algo extraordinário alcançar já a reentrada no rácio da dívida. Num debate da campanha de 2017, eu próprio disse que iríamos entrar no rácio este ano ou no ano anterior, como já poderia ter acontecido. Ribau Esteves disse que seria impossível, que iríamos demorar sete a oito anos. Quando chegou a Aveiro os impostos cobrados eram de 21 milhões de euros por ano, agora são 36 milhões. Para além disso, há um conjunto de serviços públicos que foram deteriorados. Houve poupança nos transportes públicos mas é um enorme custo para a população. Defendemos uma empresa pública que não se limite ao concelho, Aveiro não é uma ilha. Há municípios aqui à volta para os quais não há solução de transportes. Deveria envolver as Câmaras da região. Ribau Esteves é presidente da Comunidade Intermunicipal Região de Aveiro (CIRA) e não fez uma única política intermunicipal, nem como Ílhavo que está mesmo ao lado. Agora a Câmara teve de injectar muito dinheiro, também através da CIRA, para os privados continuarem a trabalhar. Temos menos autocarros e uma companhia privada a receber mais dinheiro. Deveria ser remunicipalizada. Só por ideologia o presidente da Câmara de Aveiro entendeu não o fazer. Antes não havia investimento, agora são autocarros e um ferry elétricos pagos com dinheiros públicos.

P – Sobre as obras, novas escolas, rodovias…

R – Na habitação social existiam 50 e tal apartamentos da Câmara que estavam desabitados e a cair. Portanto, a Câmara recupera o seu património e coloca ao dispor. Até é estranho que se celebre isso, depois de tantos anos abandonados. Nas escolas, a alternativa era caírem ? Está a fazer o que é normal. Não há candidatos a irem a debate dizerem que não deviam ser feitas estas obras. Seria muito pouco democrático dizer que só há dinheiro para investir porque Ribau Esteves é o presidente da Câmara. Os fundos europeus e estatais estão ao dispor de qualquer Câmara.
Ainda sobre as obras, as grandes obras, são para reconfigurar a face de Aveiro, com menos transportes públicos e mais carros.
A Avenida Europa é a EN109, não há passeios nem separadores centrais, é uma estrada nacional.
Em muitas avenidas de Aveiro, não existem ainda passeios. Só há organização das obras públicas para interesses que não são os de toda a gente, mas dos privados, onde vai existir o prédio.

  • Parque subterrâneo do Rossio

“No estacionamento do Rossio, no que depender do BE, a obra será travada. Se tivermos força para isso, não existirá parque estacionamento. Não são necessários aqueles lugares, nem um silo auto. É preciso é uma reorganização do espaço urbano para que hajam menos carros. Se houver mais transporte público, há menos carros e liberta-se espaço, moradores ou não. Neste momento, há lugares suficientes. Temos de alcançar grande parte das necessidades de mobilidade no espaço urbano em 15 minutos a pé ou bicicleta”;

  • Betão versus políticas estruturais

“Falamos de betão em Aveiro, não se fala de obra social, de políticas estruturais, de ação social. Mesmo na parte da obra, o que vemos é retirar árvores de todo o lado. Propomos que haja um alargamento de espaço verde na zona urbana, junto ao pavilhão dos Galitos, por exemplo, para o integrar com o parque Infante D. Pedro. Queremos também outro grande parque, fora da cidade, com árvores, bosque, para caminhadas e fazer BTT, por exemplo. Mais espaço para as pessoas usufruírem.
Outra questão concreta: o preço da água em Aveiro é muito elevado. A dos resíduos, que está indexada, é um abuso. A tarifa é muito superior ao custo do serviço. A Câmara cobrou 1,57 euros por um 1 euro de custo de serviço. Andou a financiar-se. Há 49 pessoas que beneficiam da tarifa social da água. É ridículo. Queremos que seja semelhante à tarifa social de energia, para chegarmos a 5 mil pessoas”;

  • Habitação social e apoios sociais

“A Câmara ainda não pode fazer habitação social. Falta aprovar a Estratégia Local de Habitação. Sem esse documento, o diagnóstico e prioridades, não pode fazer habitação social. Aveiro está em atraso. Não pode aceder a fundos. No programa ‘Primeiro Direito’, para famílias em carência social que estão em casas a cair, não foi buscar um euro sequer, porque não pode. Mas vai buscar dinheiro para o parque de estacionamento no Rossio.
A política social tem quase nada de investimento em Aveiro. Temos cento e tal famílias agora apoiadas pelo fundo de apoio criado pelas medidas de combate à Covid, mas são ajudas casuísticas. As pessoas têm de bater à porta, pedir por favor. Nas finanças há esses dados todos. Há muitas pessoas a ficar para trás. As IPSS que apoiam abrangem muito mais pessoas. É preciso um serviço público de ação social.”

Áudio com declarações sobre outros temas desenvolvidos

As freguesias; o PS; os eleitores da esquerda e da direita; Ribau e Trump; o orçamento participativo.

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