Experimentação e investigação em Artes Visuais

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A GRÃO é uma residência artística coordenada pela Associação Quinta das Relvas, uma associação sem fins lucrativos que promove atividades no âmbito das ‘Artes e Sustentabilidade’.

A primeira exposição da GRÃO – Residência Artística e de Investigação tem lugar na antiga Capitania de Aveiro entre os dias 1 e 16 de Fevereiro.

Tendo sido criada em 2019, a primeira edição da GRÃO teve lugar entre 14 de Outubro e 3 de Novembro de 2019 e acolheu jovens artistas em início de carreira, tendo tido o apoio das faculdades de Belas-Artes das Universidades de Lisboa e Porto e dos seus centros de investigação – respectivamente CIEBA e i2ADS – e da Câmara Municipal de Aveiro, que acolhe a exposição final.

A GRÃO tem como principal objetivo a criação de espaço de experimentação e investigação em Artes Visuais promovendo a descoberta de novas possibilidades em Arte num contexto de partilha de experiências, abordagens, problemáticas e linguagens. Assim, a GRÃO procurou abrir espaço para que jovens artistas desenvolvam o seu trabalho num ambiente propício a um dinamismo diferente do habitual.

Neste contexto, inevitavelmente os artistas residentes envolveram-se dum modo consciente, tanto a nível psicológico como social, no espaço que lhes é proporcionado pela Quinta das Relvas, bem como o espaço e população da vila onde a Quinta se situa, a vila da Branca, em Albergaria-a-Velha (Aveiro).

A par do trabalho desenvolvido em atelier pelos artistas residentes, estes foram acompanhados por visitas de artistas nacionais de reconhecido mérito, numa experiência intensa mas intimista, tendo cada um dos participantes tido a oportunidade de conversar e mostrar o trabalho desenvolvido em residência aos artistas Isabel e Rodrigo Cabral, Sara Bichão, Rodrigo Oliveira, Rui Sanches e Vasco Costa.

Nesta exposição apresentam-se os resultados dos 8 artistas residentes selecionados por Open Call – Carolina Serrano, Francisco Lourenço, Hugo Lami, João Melo, Joana Patrão, Juliana Matsumura, Tiago Costa e Tiago Santos – e das duas coordenadoras do projeto – Beatriz Manteigas e Mariana Malheiro – também elas participantes na residência.

Assim, surge uma exposição multidisciplinar onde diferentes mediums e abordagens registaram a assimilação de um novo ambiente, uma nova paisagem, novas interações sociais, e até mesmo um conflito com as condições climatéricas que marcaram o período de residência. Do local e da experiência resta a forma como os artistas o sentiram.

Convidamos o espectador a aproximar-se tanto dos artistas como do espaço envolvente, ao ver reunidos os registos de um tempo e espaço que influenciaram 10 seres criativos.

O espectador poderá sentir um pouco daquilo que foi a experiência da residência, seja através dos desenhos e pinturas de Tiago Santos – onde o tema predominante é a relação com a paisagem, refletindo o espaço natural da Quinta das Relvas – seja pelas esculturas e pinturas de Hugo Lami que, ao usar a flora da região e os materiais disponíveis como ponto de partida, compõe uma instalação que imagina paisagens de um “Mundo Novo”.

Na instalação de Joana Patrão uma série de desenhos são dispostos em torno duma projeção de vídeo central. Os desenhos são feitos com a argila de uma parte do solo da Quinta das Relvas e são apresentados no chão, evocando a horizontalidade da sua proveniência. Entre o uso directo das mãos na feitura dos desenhos e deposições de argila e água não controladas (circunscritas apenas a uma forma circular) é explorado o potencial plástico, poético, imaginante deste material. Nesta instalação, a projecção de vídeo surge como uma espécie de imagem-acontecimento, uma imagem viva que organiza os desenhos. É assim proposta uma reflexão material que assenta numa árvore como símbolo cósmico, centro de relação céu-terra, água-terra, vida-morte. O ciclo/círculo, presente tanto nos desenhos como na sua organização, surge como homenagem aos tempos naturais – repetição, metamorfose, regeneração.

Os registos em vídeo e em desenho de Juliana Matsumura levam-nos até às instalações realizadas na Quinta perto duma fonte, onde a água a chuva e o vento são partes constituintes da obra, e contêm a marca da acção da natureza. Utilizando também o vídeo como medium, Francisco Lourenço apresenta um conjunto de paisagens, sons, animais e situações proporcionadas pelo ambiente particular da Quinta das Relvas. Estes vídeos, que surgem da manipulação directa sobre o vídeo digital, são composições que representam momentos únicos construídos através das relações entre os movimentos próprios da natureza. Tiago R. Costa traz-nos um painel-assemblagem composto por tecidos (que resultam da remoção e apropriação da tinta de peças de mobiliário e paredes) e objetos encontrados, justapostos pelas afinidades formais e simbólicas que suscitam.
Como noutros trabalhos do artista, abundam as referências ao universo rural, onde as experiências na Quinta se cruzam com memórias de outros tempos e geografias.

Seguindo abordagens que fogem à temática da natureza, as obras de Mariana Malheiro tiveram como ponto de partida fotografias a preto e branco (um processo habitual no seu trabalho) guardadas na casa da Quinta das Relvas, produzindo assim pinturas que resgatam a história da família que habitava a Quinta e a região em tempos. Nos Invisible Drawings de Carolina Serrano há lado espiritual do tempo sentido. Nestes, a folha de papel é substituída por placas de cera de parafina negra e, por isso, qualquer tentativa de as riscar deixar-lhes-á marcas permanentes. Se num desenho, por norma, a linha ou mancha se evidenciam do seu suporte, tal aqui não acontece, pois este este negro oculta os cortes mais gentis, os riscos mais ténues. Ao longe, ou numa vista apressada, estes “desenhos” não serão mais do que rectângulos negros, baços. Se neles o olhar se demorar, atento, eles revelar-se-lhe-ão, juntamente com aquilo que figuram. Estes desenhos pedem que, com o nosso corpo, procuremos a luz que fará com que os traços apareçam.

João Melo apresenta uma série de pinturas a partir de desenhos de imaginação. Estes partem da descontinuidade intrínseca ao pensamento e à observação para chegar ao lugar das emoções, tão viscerais com virtuais. O artista procura diluir estruturas e criar contágios inesperados para, assim, ilustrar um dicionário de símbolos colectivo e intemporal das paisagens psicológicas.

As obras de Beatriz Manteigas representam um momento particular resultante de novos e intensos estímulos assim como um intenso questionamento sobre a obra produzida que se reflectirá de forma contínua mesmo após o término da residência. Estas partem da série de trabalhos mais recente da autora – Liquid Societies – iniciada em 2017 a partir dos estudos de Bauman e despoletada pela crise dos refugiados do Médio Oriente. No entanto, as obras aqui apresentadas destacam-se das anteriores pelas figuras dançantes dispostas sobre vários planos justapostos de profundidade questionável – numa alusão a maquetas de cenografia para bailado, ilustrando uma sociedade não só líquida mas do espectáculo.

Representando esta exposição o culminar da primeira edição da GRÃO, a organização confessa a vontade de tornar esta residência anual com crescente qualidade e visibilidade.

Nas palavras de Rui Sanches (que acompanhou os participantes em residência), “foi uma agradável surpresa encontrar, num local longe de tudo e, apesar da beleza da paisagem, com condições de trabalho difíceis, um grupo de jovens artistas tão interessante, motivado e entusiasmado. Espero que a residência tenha condições para continuar durante muito anos”.

  A equipa da Associação Quinta das Relvas.

 

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