Breves notas relativas ao Litoral de Ovar, Barrinha de Esmoriz e Ria de Aveiro

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Ria de Aveiro (Carregal, Ovar).

As intervenções a realizar, porque não apenas urgentes e prementes como também extremamente caras, têm de ser feitas de forma planeada, sustentada, fundamentada e de longo prazo.

Rui Polónia *

É de público conhecimento que o Concelho de Ovar está situado numa das zonas litorais mais ameaçadas a nível mundial pelo avanço do mar, com valores anuais de recuo da linha costa entre os mais elevados no nosso planeta. Apesar deste facto, nas últimas dezenas de anos, muito pouco mudou nas políticas de ordenamento da orla costeira e nas estratégias de defesa da costa face à inclemência do mar.

Persistir no mesmo tipo de atuação e esperar resultados diferentes não apenas é inútil como incompreensível.

O estado em que a nossa linha costeira se encontra, com zonas onde o recuo da linha de costa ultrapassou as dezenas de metros – veja-se o exemplo da zona compreendida entre Maceda e Ovar, onde na linha de rebentação é normal estarem ainda cravados no solo os restos de troncos de pinheiros que há poucos anos constituíam a zona pós-dunar – é resultado não apenas do avanço do mar mas também de uma política de intervenções pontuais, desconexas, caras e, sobretudo de efeito temporariamente limitado, extremamente localizado e, mais preocupante ainda, que agravam os problemas logo ali, poucos metros ao lado.

As intervenções avulsas e desconexas no litoral por parte de diversas autarquias mais não tem feito do que apenas adiar temporariamente o problema, seguindo políticas de deposição de mais e mais pedra na linha marítima, arruinando praias e descaracterizando espaços naturais de atração turística e de desfrute balnear, com as consequências que se podem apreciar num rápido trajeto pelo litoral e pela análise da economia local.

Estas intervenções avulsas, centradas apenas em enrocamentos paralelos à costa ou então em estruturas perpendiculares de defesa (vulgo, esporões), mais não tem conseguido do que dispendiosas intervenções pontuais, de limitado efeito temporal e que, na maior parte das vezes, mais não fazem do que agravar o problema nas áreas envolventes, devido à perturbação que originam ao nível das correntes, dinâmica de ondas e de deposição de sedimentos, resultando num empurrar de problemas para áreas e concelhos vizinhos…

Tentativas inúteis e dispendiosas de resolução de problemas que apenas desperdiçam fundos públicos, deterioram e descaracterizam a paisagem marítima e litoral e agudizam problemas já de si graves. Veja-se a praia do Furadouro, quase completamente destruída em poucos anos apesar da (persistência) da deposição de pedra, com o desaparecimento dos cordões dunares a norte e a sul da praia bem como da larga língua de areia que outrora constituiu uma das mais bonitas e largas praias de areia quartzosa, branca e límpida, da zona a sul do Douro e que, nesta época balnear, em frente ao povoado do Furadouro, apenas quase se encontra pedra.

O litoral necessita de ser pensado, estudado e as intervenções a realizar, porque não apenas urgentes e prementes como também extremamente caras, têm de ser feitas de forma planeada, sustentada, fundamentada e de longo prazo. A defesa costeira não pode existir no pensamento político apenas quando surgem situações pontuais de alarme social – particularmente quando na invernia as vagas marítimas invadem a orla costeira edificada e as câmaras de televisão se instalam para ver a desgraça alheia.

Urge pensar o litoral de forma diferente e integrada. Importa que as intervenções sejam feita de forma coordenada e articulada, numa visão abrangente do território, terminando com o clássico das últimas décadas que tem sido a autarquia A aumentar o esporão vertical em frente à sua linha de praia para proteger a marginal, agravando o efeito da erosão marítima a sul, no território da autarquia B, num caro jogo do empurra que não parece ter fim.

No concelho de Ovar não podemos continuar a ignorar a bomba relógio que é a antiga lixeira Municipal, em Maceda, depois transformada em aterro. Temos inimagináveis metros cúbicos de resíduos enterrados no solo numa zona onde o mar já galgou a praia, dunas primárias, zona interdunar, dunas secundária, zona pós- dunar e começou a devorar o cordão florestal que separa os antigos terrenos da lixeira da catástrofe que seria a libertação incontrolada de enormes quantidades de resíduos para o nosso litoral, com um impacto ecológico, na saúde pública e economia absolutamente impensável e assustador. A defesa litoral não pode ser feita apenas na frente marginal dos povoados, junto às esplanadas e lojas: é toda uma linha que tem de ser protegida.

Voltemos ao Furadouro como exemplo: a defesa de costa durante décadas centrada na deposição de pedra agravou a erosão a norte e a sul, ameaçando tornar esta zona numa península, rodeada de mar por todos os lados menos por um; a linha de rebentação das ondas no inverno, a sul, alinha-se já quase por uma reta que, prolongada, atravessaria a meio a zona urbana da povoação…

A defesa do litoral obriga-nos, não só pela relação de dinâmica ecológica, mas também pelas interações humana, urbana e económica existente entre elas, a olhar para as zonas e estruturas naturais adjacentes, como a Barrinha de Esmoriz e a Ria de Aveiro. Estas são duas estruturas de valor ecológico, paisagístico e de promoção turística único e inigualável mas que, nas últimas décadas, têm sido abandonadas também, tal como a orla costeira, a políticas desconexas, pontuais e frequentemente desastrosas.

Importa perceber que recuperar espaços naturais não é apenas colocar passadiços de madeira e algumas placas; é muito, muito mais do que isso. É, antes de mais, investir em estudos prévios de qualidade, com investigação das dinâmicas existentes e do impacto ambiental das medidas propostas.

Não podemos intervir na Ria de Aveiro apenas dragando o canal de navegação central e arruinando as margens, acelerando a salinização dos terrenos agrícolas ribeirinhos. Não podemos dragar a ria de aveiro e continuar apenas a ter um esgoto a céu aberto em muitos locais, como por vezes no extremo Norte do Canal de Ovar parece acontecer, obrigando atletas, de crianças a campeões nacionais, das escolas de canoagem e de vela a navegar em águas insalubres e com restos fecais a boiar. Não podemos continuar a ter uma Barrinha de Esmoriz com uma cara lavada feita de novos passadiços mas com um ecossistema ainda assente em águas poluídas e manchadas por descargas inaceitáveis, que ameaçam a sua continuidade a curto prazo.

* PS concelhio de Ovar.