
A educação tem sido, historicamente, um dos pilares fundamentais do desenvolvimento humano, social e económico. Contudo, num contexto de transformação acelerada, ao nível da tecnologia, social e cultural, o seu papel tornou-se simultaneamente mais central e mais exigente.
Por Sofia Almeida *
Em 2025, o número de estudantes inscritos no ensino superior a nível global atingiu cerca de 264 milhões, mais do dobro do registado no início do século, refletindo uma expansão significativa do acesso à educação terciária (UNESCO, 2025). Apesar destes avanços, persistem desigualdades estruturais relevantes: aproximadamente 739 milhões de adultos continuam sem competências básicas de literacia, dois terços dos quais mulheres, revelando assimetrias profundas no acesso e na qualidade da educação. Paralelamente, a participação dos adultos na aprendizagem ao longo da vida tem estagnado ou diminuído em várias economias, levantando sérias questões sobre a capacidade dos sistemas educativos de responder a um mundo em constante mudança (OCDE, Education Policy Outlook 2025).
Mais do que um problema de acesso, o grande desafio contemporâneo da educação reside na sua relevância. A educação continua a ser essencial para reduzir desigualdades, promover a inclusão, estimular o pensamento crítico e preparar cidadãos para uma participação ativa em sociedades democráticas e sustentáveis. No entanto, estas funções clássicas coexistem hoje com novas exigências: preparar pessoas para trabalhar com tecnologias emergentes, lidar com a Inteligência Artificial, adaptar-se a carreiras não lineares e tomar decisões éticas num ambiente de crescente complexidade. No setor do turismo e da hospitalidade, intensivo em pessoas, experiências e territórios, estas tensões tornam-se particularmente visíveis.
Um dos fenómenos mais debatidos no mercado de trabalho atual é a mudança geracional. As novas gerações que entram no mundo profissional, frequentemente associadas à Geração Z, apresentam expectativas, valores e motivações distintas das gerações anteriores. Revelam menor tolerância a estruturas rígidas, menor predisposição para carreiras “para a vida” e uma maior valorização do propósito, do equilíbrio entre vida pessoal e profissional, da flexibilidade e do impacto social do trabalho. Em contrapartida, deparam-se ainda com ambientes organizacionais marcados por modelos tradicionais, horários extensos e progressões de carreira lentas, características particularmente evidentes no setor do turismo.
Surge, assim, uma clivagem evidente entre o que o mercado de trabalho oferece e aquilo que muitos jovens procuram. Esta distância não deve ser interpretada como falta de compromisso ou resiliência por parte das novas gerações, mas antes como um sinal claro de mudança nas motivações associadas ao trabalho. A centralidade do emprego como elemento identitário exclusivo está a ser progressivamente substituída por uma visão mais plural da vida profissional, onde a aprendizagem contínua, a mobilidade, os projetos temporários e o significado assumem um papel central.
Perante este cenário, importa questionar: estará a educação a acompanhar esta mudança? Em muitos contextos, a resposta continua a ser insuficiente. Persistem modelos de ensino excessivamente transmissivos, currícula pouco flexíveis e uma fraca articulação entre a teoria, a investigação e a prática. No ensino superior, e particularmente na formação em turismo, torna-se urgente reforçar a ligação entre o conhecimento académico e a realidade do setor, preparando profissionais capazes de lidar com a complexidade, a incerteza e a diversidade de contextos territoriais e organizacionais.
A educação no turismo deve, por isso, assumir-se como um espaço de formação integral, indo além da mera aquisição de competências técnicas. É fundamental desenvolver capacidades analíticas, pensamento crítico, sensibilidade ética, competências interculturais e softskills. Num setor fortemente dependente de territórios e das comunidades, formar profissionais conscientes do impacto das suas decisões é tão importante quanto ensinar modelos de gestão, estratégias de marketing ou ferramentas digitais.
Num mundo marcado por transições digitais, ecológicas e demográficas, formar pessoas capazes de aprender continuamente, de colaborar, de questionar e de agir com responsabilidade é talvez o maior contributo que o ensino pode oferecer. No turismo, onde a experiência humana está no centro da atividade, o futuro do setor dependerá, em grande medida, da qualidade da educação que hoje proporcionamos às gerações que irão liderar, transformar e cuidar dos destinos de amanhã.
Neste contexto, a adaptação torna-se inevitável.
* Coordenadora Científica da Área de Turismo e Hospitalidade da Universidade Europeia e Investigadora do CETRAD-Europeia. Artigo publicado originalmente no site Publituris.pt.
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