Até onde vai o limite da tradição?

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PAN.
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Perdeu-se em Portugal a oportunidade de mostrar a evolução de um povo, que pela votação da maioria dos deputados com assento na Assembleia da República, decidiu manter uma tradição de crueldade e de morte.

Marta Dutra *

Falo de tauromaquia e do chumbo do projecto apresentado pelo PAN para a proibição das corridas de touros.

Já muito se tem discutido e escrito sobre este assunto. Desde a justificação absurda de que os touros não sofrem até à importância de se manter a tradição e beleza do espectáculo, entre outras justificações de permeio veiculadas. Posso acreditar até que há quem genuinamente se preocupe com o futuro de quem desenvolve este negócio, que se sustenta à custa da tortura destes animais, no caso do mesmo ser proibido.

O ser humano tem demonstrado ser adaptável a novas realidades e se a nossa preocupação fosse sempre apenas na direcção de quem tem um negócio a rentabilizar e não na direcção do que é eticamente correcto ainda viveríamos numa época de escravatura.

As tradições vão mudando à medida que a mentalidade de um povo vai evoluindo e obviamente que em Portugal muitas tradições têm evoluído ao longo dos séculos. Então porque mantemos esta tradição com origem medieval e a perpetuamos até ao séc. XXI, sendo um dos poucos países em que se mantém?

A lei portuguesa condena os maus tratos a animais, mas faz excepção à tauromaquia. Porquê?

A resposta a estas perguntas não se prende com a preocupação com a tradição, mas sim a defesa de interesses pessoais que estendem tentáculos até aos sucessivos Governos e Parlamento. Estamos a falar de uma minoria de pessoas ligadas a este negócio que só é lucrativo porque o Estado investe directa e indirectamente cerca de 16 milhões de euros anualmente para que o mesmo se mantenha. Sem esta ajuda do Estado esta tradição já teria desaparecido. Segundo dados do IGAC (relatório de 2017), o público que assiste a estes espectáculos diminuiu em 50% nos últimos dez anos. Outro indicador, que inclusivamente revela o pensar e o sentir dos nossos jovens, é a proibição das garraiadas nas festas académicas de Setúbal, Porto, Coimbra, Tomar e Évora. A sociedade portuguesa dá indicação clara do desinteresse por esta tradição sangrenta e demonstra uma cada vez maior sensibilidade relativamente à forma como os animais são tratados.

Internacionalmente a tauromaquia também tem gerado consternação, em particular o Comité dos Direitos das Crianças da ONU enviou, em 2014, uma recomendação ao Estado Português no sentido de afastar as crianças da actividade tauromáquica, por exposição física e emocional a violência, solicitando a tomada de medidas legislativas para protecção destas crianças. Em vez de seguir esta recomendação, o Estado Português não só continua a permitir a entrada de crianças em touradas, como ainda permite as escolas de toureio, onde crianças de tenra idade aprendem, numa completa dessensibilização pelo sofrimento do outro, a ferir animais inocentes, leia-se bezerros.

Maltratar animais, sejam eles touros, cães ou gatos, deixou de ser aceitável, mesmo que isso faça parte de uma longa tradição. Manter as touradas em Portugal não é uma questão de respeitar a liberdade de uma minoria, é desrespeitar os direitos mais fundamentais de outros seres vivos – touros e cavalos – e manter uma tradição cruel que deveria ter ficado lá atrás na Idade Média com as bruxas nas fogueiras.

Por si só é absurdo mantermos esta tradição eticamente reprovável pelos maus tratos que implica a animais sencientes, com plena consciência de si próprios e do seu sofrimento, mas também porque a maioria dos portugueses não se revê e se envergonha da mesma. Mas o Parlamento português vaticinou hoje a continuidade desta agonia violenta e cruel para com milhares de Miuras, a favor de quem não evoluiu no sentimento de compaixão para com outros seres e de um financiamento pago por todos nós.

Não duvidamos que a tauromaquia irá terminar em Portugal, mesmo quem se encontra ligado a este negócio sabe-o, o seu estrebuchar é evidente. Dos 308 municípios do país, apenas 44 possuem actividade taurina, ou seja, 14,8% e são cada vez mais os municípios a declarar a sua reprovação a esta actividade. As novas gerações não a perpetuarão, essa é uma leitura muito clara da realidade.

Mais, as gerações vindouras não compreenderão como fomos capazes de aceitar isto, nem a vontade de impor a tauromaquia como fazendo parte da cultura e identidade do nosso país.
Não proibir hoje as corridas de touros para respeitar o embrutecimento de quem gosta de torturar, mutilar e matar outros seres vivos por prazer é verdadeiramente lamentável. Portugal hoje ficou envolto por um manto de Idade Média.

* PAN Aveiro