A caridade do egoísmo

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Mendicidade nas cidades.

As instituições de caráter social desdobram-se, não têm capacidade para ajudar tantos carenciados e a sociedade o que faz?

Por Sara Tavares *

A caridade já não é sempre conotada ao afeto, caridade do latim “caritas” significa afeto, amor e, com o passar do tempo está a perder esse valor. Deveria ser um sentimento, uma ação altruísta de ajuda ao próximo sem que se espere qualquer tipo de recompensa, ou não?

Li um artigo sobre uns moradores de um prédio em Alvalade, que sem licença ou conhecimento da Câmara Municipal de Lisboa, construíram pilaretes de mármore à volta do prédio para impedir a permanência de sem abrigo no local. Esta história fez-me lembrar uma outra.

Há uns dias, da janela da casa de uma amiga, vi um casal que se aproximou de uma pessoa, que dormia no chão encostado a um muro. O homem, com o pé, abanou o senhor deitado, como se de um animal feroz se tratasse.

Confesso que fiquei chocada , descemos as escadas, aproximamo-nos, verificámos que se tratava de um sem abrigo já sinalizado e acompanhado por uma instituição local.

As instituições de caráter social desdobram-se, não têm capacidade para ajudar tantos carenciados e a sociedade o que faz?

À segunda-feira constroem-se pilaretes para evitar que seres humanos durmam perto de um prédio; à sexta-feira fazem-se jantares de beneficência ; à quarta-feira toca-se numa pessoa com um pé… de longe… numa atitude de desdém e nojo; ao Domingo contribui-se para o Banco Alimentar. Anda-nos a escapar alguma coisa enquanto sociedade?

É certo que nem sempre é fácil ajudar, até porque todos sabemos que efetivamente há pessoas que não querem ajuda. Não obstante, o respeito pelo ser humano deve imperar.

A prática da caridade, da ajuda ao próximo é, indubitavelmente, indicador de elevação moral e uma das práticas caraterizadoras da boa essência do ser humano.

Vergonha alheia é o que sinto, quando leio notícias que nos dão conta de atitudes preconceituosas nos dias de hoje. Que caridade é esta? É a do egoísmo? Ajuda-se, mas só se for ao longe? No meu prédio é que não…. Repensemos!

* Professora, vogal do PS na Assembleia Municipal de Aveiro.

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