
Não tem nada a ver com o “ Portugal” de Alexandre O’ Neil (“ó Portugal,se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato!”) ou com o mais recente “meu querido Portugal/ és só estufas / e alojamento local”, cantado por Luis Varatojo. Mas poderia ter.
Talvez não se tenham dado conta, mas às vezes, Portugal é um país…cheio. Ora vejam lá!
Os últimos dias foram cheios de…calor!
No fim de semana passado, as praias estiveram repletas de banhistas. As televisões abarrotaram-se com imagens de incêndios florestais. As esplanadas, esgotadas de clientes, e os centros históricos de cidades, vilas e aldeias pejados de turistas. Isto, para não referir aqueles locais que, devido ao calor, estiveram apenas cheios de… moscas. Ou, até mesmo os políticos, locais e nacionais, que nos enchem de promessas cheias de…nada!
Na primeira semana de início deste ano letivo, 2026, as notícias avisaram que mais de 600 alunos não tinham escolas, porque estas estavam repletas, o que sói dizer-se…cheias.
As prisões, igualmente cheias.
Os tribunais, enchem-se de processos, o que prejudica a rapidez de julgamentos, que é como quem diz, o exercício da Justiça está cheio de atrasos.
Não falando em quem tem um coração repleto de ilusões e bolsos cheios de coisa nenhuma… Lembremos os que ainda têm a bolsa algo cheia e a (in)feliz ideia de procurar, sobretudo ao fim de semana, um restaurante e ouvem: “Têm reserva?”. “Ah, não?! Pois não podemos atender. Já estamos cheios!”.
Cá pelo burgo, a Avenida Lourenço Peixinho, tem dias em que apresenta uma saturação de trânsito, a fazer lembrar os velhos tempos quando não havia a A 25 e existia a célebre passagem de nível na José Luciano de Castro, em Esgueira, e todo o automóvel, camião, moto, motorizada, ou bicicleta enchia a “espinha dorsal” da cidade como dizia, na época, um ilustre plumitivo…E isto porque ainda não havia as trotinetes que hoje enchem os nossos olhos de redobrada atenção.
Indo ao pormenor (e cada um tem, de certeza, uma “mão cheia” deles), lembremos o que aconteceu há alguns meses atrás, quando uma pessoa amiga caiu, lá para os lados de São João da Madeira e tudo indicava que teria fraturado um braço. A ambulância ( por feliz acaso, ainda havia alguma livre) levou-a ao hospital público mais próximo, Santa Maria da Feira. Depois de ter passado um dia no dito hospital, sem comer nem beber que o cabaz alimentar está caro para todos… foi vista pelo médico especialista que lhe encheu o dito membro de camadas e camadas de pesado gesso ( parece que há materiais mais leves, mas…talvez estejam fora do orçamento hospitalar ou o mesmo já tenham sido esgotados, sabe-se lá), concluindo o que já era esperado:
–Tem o braço fraturado e vai ter de ser operada.
Entre choros e lamentos, porque estava cheia de dores, a acidentada respondeu:
— Pronto…se tem que ser… e quando, sr.dr.?
Resposta pronta do médico:
— Ah isso não sei, porque nós aqui estamos cheios e vai ter que procurar outro hospital para lhe fazerem isso. Olhe, talvez Aveiro ou…pois não sei. Nós estamos cheios.
Ora, o meu receio é que num país tão cheio, qualquer dia algum ministério, para dar uma folga ao da Saúde, onde certas Urgências estão cheias de pacientes – por exemplo, o Ministério da Administração Interna, cujo titular, também está cheio de casos que enchem de preocupação o governo e a oposição -, comunique a quem procure o tratamento que o SNS tem obrigação de prestar, (segundo o preceituado na Constituição Portuguesa) responda, passe a ironia, por SMS, como agora é costume:
– Caro utente, agradecemos a sua procura pelos nossos serviços, mas lamentamos informar que estamos cheios. Sugerimos que recorra aos serviços hospitalares dos países mais próximos, Espanha e/ou talvez Marrocos.
Portugal, é mesmo, um país…cheio!
Jesus Zing
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