Visita de autarcas da região de Aveiro a Newark, EUA (arquivo).

A comunidade portuguesa instalada em Newark, Estados Unidos da América, há várias décadas de anos, mantém com Portugal uma grande ligação.

O 10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, é celebrado com um desfile por ruas de Newark, com passagem obrigatória pela Ferry Street, conhecida informalmente como Portugal Avenue, no coração do célebre bairro Ironbound.

É um cortejo que inclui trajes, música e outros icons portugueses que demonstram que as comunidades luso-portuguesas continuam bem vivas e com alguma influência política e comercial na região.

São maioritariamente comunidades com raízes em Ílhavo e na Murtosa, daí que, representantes das autarquias portuguesas, todos os anos decidam dar uma saltada até ao outro lado do Atlântico, naquilo que se poderá chamar de jornada de saudade-diplomática, onde se incluem os chamados deveres protocolares, destacando-se uma audiência oficial, no edifício City Hall (Câmara), com o mayor (presidente da Câmara).

Em 1997, uma comitiva portuguesa, de Ílhavo e Murtosa, que integrava os presidentes das Câmaras, Humberto Rocha e Augusto Leite e respectivas esposas, foi recebida pelo democrata Sharpe James, então mayor daquela cidade norte-americana, no seu gabinete, no edifício do City Hall, com a presença do vereador do Bairro Leste (luso- português).

Recorda quem assistiu que a conversa decorria animada – Sharpe era um bom e divertido conversador- quando um assessor entrou e segredou algo ao Mayor. A janela entreaberta do gabinete deixava entrar um barulho estranho, indicador de agitação lá fora, no exterior do edifício. O Mayor perdeu o seu ar divertido, levantou-se e disse num “americano” tom nervoso e muito rápido, o que dificultou um pouco a compreensão da distinta comitiva:

– Desculpem, mas têm que sair imediatamente, de forma que ninguém os veja, por isso vão ser conduzidos pelos subterrâneos do edifício.

E assim foi. Entraram em corredores estreitos, desceram escadas sem luz nem pavimento, e acabaram por sair por uma discreta portinha lateral.

Tudo isto sem saberem porquê. O que teriam feito de mal, questionavam- se. Cá fora depararam-se com uma enorme manifestação de pessoas de raça negra.

Então o que acontecera? Durante a noite, um taxista negro fora assassinado e os seus congéneres exigiam justiça e proteção. E porque é que aqueles brancos tiveram que sair escondidos? Porque se os manifestantes soubessem que o Mayor, também de raça negra, demorava a recebê-los, por dar prioridade a gente branca, a violência podia estalar…, souberam depois.

O Mayor não brincava em serviço!…

Jesus Zing

NOTA: James Sharpe, faleceu em Maio de 2025. Tinha 89 anos. Foi o Mayor com mais tempo no poder em Newark . Chegou a ser condenado por corrupção. As despesas inerentes às viagens e estadia dos acompanhantes da comitiva portuguesa não foram pagas com dinheiros públicos. Cada elemento pagou a sua. E alguns ficaram em casa de familiares, fizeram questão de nos lembrar.

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