Junta de Freguesia de Válega, Ovar.

“Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado: os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. […]” E hoje venho opinar precisamente sobre o estado a que podemos estar a chegar.

Por Marcos Sousa *

A primeira frase é do grande Capitão de Abril, Salgueiro Maia, numa mensagem dirigida aos militares do seu regimento antes da saída das tropas, na madrugada de 25 de Abril de 1974. Não pretendo, evidentemente, comparar épocas, circunstâncias ou sequer grandezas, aproprio-me apenas da expressão, porque poucas haverá tão portuguesas e tão úteis para descrever certos momentos, nomeadamente o estado a que chegámos.

Neste caso, o da nossa política, uma vez que vivemos tempos tão estranhos, já que, nunca tivemos tanta informação disponível e, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão fácil ter certezas sem perder muito tempo com o incómodo de conhecer verdadeiramente os assuntos. A política, nacional ou local, não escapou a este vício, e talvez por isso valha a pena recordar uma coisa tão básica, que é o simples facto de a democracia não viver, de forma saudável, apenas de quem governa, precisando, como de pão para a boca, da qualidade de quem faz oposição.

Partindo deste pressuposto, entende-se que uma boa oposição, tem que incomodar o poder, tem que perguntar, fiscalizar, encontrar contradições, denunciar o que tem de denunciar e apresenta alternativas. Não existe, portanto, para facilitar a vida a quem governa, pois se assim fosse, seria francamente inútil.

Por outro lado, também não deve incomodar por desporto ou com o objetivo de obter um qualquer titulo de participação, pois se assim o fizer, corre o risco de entrar naquele quadrante político completamente paralelo a tudo o que é ideologia e começar a ser encarada como botabaixismo.

Existe uma diferença entre querer que um executivo faça melhor e precisar que faça pior, assim como existe entre criticar uma decisão porque se conhece uma alternativa e criticar porque, enfim, alguma coisa há de estar mal. E assim, como costumamos dizer em conversas informais, “ser oposição é mais fácil”, porque há sempre algo a dizer. Por exemplo, se um dado executivo não faz, critica-se porque não foi feito, se faz, questiona-se por que não foi feito antes,  se corre bem, não fizeram mais do que a obrigação, se corre mal, “nós avisámos”.

É, portanto, uma modalidade política extraordinariamente confortável, já que nunca se perde.

Numa freguesia, porém, esta forma de fazer política torna-se particularmente pobre, porque a juntar ao quase crónico problema de falta de pessoal qualificado e interessado, existe quase uma familiaridade informal, uma vez que todos se conhecem. Essa familiaridade pode ser boa, se aproximar os intervenientes em decisões que beneficiem os interesses das diferentes freguesias e municípios, contudo, também pode haver o perigo de haver uma imiscuição daquilo que são disputas pessoais com aquilo que é a vida pública.

Não se quer uma oposição silenciosa, muito menos subserviente, e, diga-se, quanto mais fiscalizar, melhor, mas o que se exige, é uma oposição capaz de fazer aquilo que distingue a crítica do ruído, que discorde, mas que apresente uma alternativa concreta.

E talvez seja esse, afinal, o estado a que não deveríamos deixar chegar a nossa política,  aquele em que saber cada vez menos já não nos impede de ter cada vez mais certezas.

* Licenciado em Administração Pública e Mestrando em Economia na Universidade de Aveiro.

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