
No Dia Internacional do Idoso, celebrado a 1 de outubro, a ANGES – Associação Nacional de Gerontologia Social faz soar o alarme sobre uma contradição alarmante: num país onde o envelhecimento demográfico atinge níveis críticos, a maioria dos programas eleitorais para as eleições autárquicas, que começaram oficialmente a campanha ontem, praticamente ignoram as necessidades específicas da população idosa.
Por Ricardo Pocinho *
Portugal continua a envelhecer de forma acelerada. Segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2024 o índice de envelhecimento atingiu 192,4 idosos por cada 100 jovens (face aos 188,1 de 2023), enquanto a idade mediana da população subiu para 47,3 anos. A população residente total é de 10.749.635 pessoas, com cerca de 2,6 milhões de idosos no país.
Estamos perante um paradoxo incompreensível. Temos um dos países mais envelhecidos da Europa, ocupando o segundo lugar atrás de Itália, mas a maioria dos programas eleitorais continuam a ser elaborados como se vivêssemos numa sociedade jovem dos anos 80.
Eleições Autárquicas: A Última Oportunidade?
As eleições autárquicas de 12 de outubro assumem particular relevância neste contexto. Com 817 forças políticas e grupos de cidadãos a disputar 308 câmaras municipais e 3.221 freguesias, estas eleições representam o poder local – aquele que está mais próximo do quotidiano dos cidadãos, especialmente dos mais velhos.
O poder local é fundamental para a qualidade de vida dos idosos. São os municípios que gerem os transportes públicos, os centros de saúde, os espaços verdes, a segurança do território, os serviços de proximidade. No entanto, a análise da maioria dos programas eleitorais revela uma preocupante ausência de propostas inovadoras e adequadas à realidade demográfica.
Falta de Inovação e Visão Estratégica
Vemos sempre as mesmas promessas – apoiar um centro de dia aqui, mais um lar ali, criar estruturas, desenhar programas, utilizar estratégias, dar voz, incentivar… enfim, uma mão cheia de coisa nenhuma. Mas onde estão as respostas inovadoras? Onde está a tecnologia assistiva? Os programas de habitação sénior? As cidades amigas dos idosos? Os programas de preparação para o envelhecimento activo?.
Os números são eloquentes sobre a urgência da situação: Portugal terá 316 idosos por cada 100 jovens em 2100, segundo as projecções demográficas mais recentes. O país pode perder 2,6 milhões de pessoas em idade activa até ao final do século.
Sistema Social e de Saúde em Risco de Colapso
A ANGES alerta ainda para os riscos de sustentabilidade do sistema social e de saúde. Com apenas 2,6 pessoas em idade activa por cada idoso (eram 4 há 20 anos), estamos numa corrida contra o tempo. Esta pode ser a última oportunidade eleitoral para implementar mudanças estruturais que evitem a falência do sistema.
A associação aponta para a necessidade urgente de implementar medidas de reforço dos cuidados de saúde de proximidade e de programas que promovam a não institucionalização, pois o contrário causará um maior esmagamento da capacidade do SNS e a possível falência da Segurança Social.
O Momento da Verdade
Não podemos continuar a adiar o inevitável. Os próximos quatro anos de mandato autárquico serão cruciais. Ou os eleitos locais assumem a responsabilidade de liderar a transformação necessária, ou estaremos a hipotecar irremediavelmente o futuro de Portugal.
A associação apela aos eleitores para que questionem os candidatos sobre as suas propostas concretas para o envelhecimento, lembrando que num país envelhecido, políticas para idosos não são um nicho eleitoral – são uma necessidade nacional, e saúda todos os autarcas que fazem e pensam diferente da maioria nesta notícia visados.
* Presidente da ANGES.
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