Inesperadamente perante um dilema

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Dunas728

Começaram a trocar frequentes SMS que terminavam, sempre, por “bjs”. Ao fim de um mês, Leonor começou não só a estar farta de beijinhos unicamente no mostrador do telemóvel, mas também a duvidar da masculinidade do jovem e resolveu-se a tirar a prova real, numa ida a uma discoteca.

Por Diamantino Dias *

Ao sentar-se à mesa do Café, Hildebrando viu um telemóvel igual ao seu, pousado numa das cadeiras. Alguém o tinha esquecido. Que fazer?, entregá-lo a uma das empregadas?, ir à esquadra situada mesmo ao lado? Viu que não estava bloqueado e lembrou-se de que, sabendo trabalhar com o aparelho, poderia marcar o número de alguém que conhecesse o proprietário. Premiu a tecla 2 para marcação rápida e, passados segundos, ouviu:

– Diz filha.
– Não é a sua filha…
– O que é que aconteceu à minha filha?, um acidente?!
– Não, minha senhora, a sua filha perdeu o telefone e eu achei-o.
– E onde está o senhor?
– Num Café, defronte dos Correios.
– A minha filha trabalha nos Correios, mas a esta hora já saiu. Se pudesse esperar um pouco, eu pedia ao meu marido para passar por aí.

Entretanto, Hildebrando viu entrar uma jovem que se dirigiu a ele, dizendo:

– Esse telefone é meu.
– E eu estou a falar com a sua mãe.
Esclarecida a situação, Leonor desfez-se em agradecimentos, fez questão de pagar, pelo menos, o café e, ao fim de cinco minutos, começou a simpatizar com Hildebrando, ligando instintivamente o seu sistema de charme.
– Então o que faz?
– Sou funcionário público.
– Eu trabalho nos CTT.

Ao fim de um quarto de hora, Leonor auto-convidou-se para novo encontro, utilizando esta técnica mais meia dúzia de vezes, porquanto, mau grado ter posto toda a sua capacidade insinuante em acção, não conseguia que Hildebrando tomasse a iniciativa. Criado segundo as normas do RDM (Regulamento de Disciplina Militar) pelo pai, sargento da GNR, falecido recentemente num acidente rodoviário, Hildebrando não se tinha ainda libertado dos princípios do cumprimento do dever acima de tudo e que as decisões eram para ser tomadas pelos superiores.

Começaram a trocar frequentes SMS que terminavam, sempre, por “bjs”. Ao fim de um mês, Leonor começou não só a estar farta de beijinhos unicamente no mostrador do telemóvel, mas também a duvidar da masculinidade do jovem e resolveu-se a tirar a prova real, numa ida a uma discoteca.

Depois de uma tarraxinha, sentiu, rápida e intensamente, que as suas suspeitas não tinham o menor cabimento. Às duas da manhã, saíram e ele levou-a a casa, parando o carro defronte da porta. Na hora da despedida, ela estendeu-lhe os lábios, cerrou os olhos e sentiu a pele picante da face direita que lhe tinha sido pudicamente oferecida, mas a boca continuou o seu destino prioritário rumo aos beijos húmidos que, não tendo sido fáceis de começar, se mostraram muito mais difíceis de terminar.

Tendo, assim, sido estabelecido oficialmente o namoro, o mesmo entrou na fase institucional: noites de terça, quinta, sábado ou domingo (dependendo dos jogos do Benfica); feriados e dias santos, à tarde. Com o andar do tempo, as restantes noites passaram a ser eventualmente utilizadas. Local: porta e corredor da entrada da casa da Nonô. Um dia, a mãe da jovem, D.ª Mariana, disse ao marido:

– Zé, não ando nada descansada com o namoro lá em baixo. A rua é escura, a lâmpada da entrada é fraquinha, a Nonô, tanto quanto eu saiba, não toma a pílula e se o rapaz for tão mexeriqueiro como tu eras, algum dia temos problema.
– E que é que tu queres que eu faça? Que leve uma cadeira e vá lá para baixo ler o jornal?
– Não, mas como isto já dura há dois anos e meio, podíamos dizer-lhes que viessem, cá para cima, conversar e ver televisão cá com a gente.

O convite foi feito, a Leonor aceitou sem grande entusiasmo e o Hildebrando, como era seu hábito, respondeu:

– Com certeza, D.ª Aninhas, a senhora é que sabe.
Os pais sentavam-se no sofá e os namorados nas suas costas, atrás da mesa que passou a ter uma nova utilidade – camuflagem. As despedidas, no rés-do-chão, tornaram-se mais prolongadas. Os meses passavam, saiu uma máquina de café a Leonor, numa rifa, e o seu querido Brando passou a tomar a biquinha, lá em casa.
– Vai um cheirinho, amigo Hildebrando?
– O senhor é quem manda, senhor Zé Nunes.
– O Benfica ganhou, vai uma caliçada de Porto?
– Se o senhor o diz.

Na véspera do 5.º aniversário do namoro, que seria comemorado com um jantar, em casa da Nonô, Zé Nunes, contabilista de uma empresa de alimentação, bebidas e produtos domésticos, disse à mulher:

– Aninhas, temos de deitar contas à vida. Eu sei que a nossa filha, com esta idade e antecedentes, já não arranja, com facilidade, melhor do que este. Mas já lá vão muitos anos e euros. São os cafezinhos, são os digestivos, são as cigarrilhas e, ultimamente, o Canal Benfica. Falando em termos económicos, ou se casam, ou corremos o risco de o Brandinho se pôr a andar e de este investimento ser contabilizado como prejuízo. Conversa com a Nonô e explica-lhe algumas das técnicas em que eras altamente especializada.
– Eu! Pobre de mim, que era uma menina mal acabada de sair do Colégio de Fátima e que caí nas mãos de um malandrão que a sabia toda. Mas indo ao que interessa. Já falei com a Nonô, várias vezes, e ela tem feito os possíveis e os impossíveis, mas o Brando é incapaz de tomar decisões e muda de assunto, quando lhe cheira a conversa sobre casamento.
– Ah, então deixa-o comigo que o vou pôr numa posição em que não lhe deixo nenhuma hipótese de se escapar. Amanhã, depois da jantarada, leva a Nonô para a cozinha e vais ver se eu, em cinco minutos, não lhe dou a volta.

Assim foi feito. Mal ficaram a sós, José Nunes disse, depois de encher os cálices do Porto e de terem acendido as cigarrilhas:

– Amigo Hildebrando, já nos conhecemos, há cinco anos, e sabe que, tanto eu como a minha mulher, para além de termos dado provas de que somos seus amigos, o consideramos como um filho. Acontece que o tempo vai correndo e nós não queremos deixar a nossa Nonô desamparada e gostaríamos de conhecer os nossos netos e vê-los crescer. A minha filha já vai fazer trinta e você trinta e três, os anos vão passando cada vez mais depressa, vocês não se casam e nós estamos a ficar muito preocupados. Sei que você é uma pessoa de bem e que não me vai levar a mal se eu, de homem para homem, lhe fizer uma pergunta: você anda aqui para casar com a minha filha ou para o que é?

Hildebrando, a quem não agradava minimamente ter que vir a assumir as responsabilidades decorrentes de um matrimónio, sentindo-se bem na actual situação e posto inesperadamente perante um dilema, logo sem terceira alternativa, respondeu, calmamente:

– É para o que é, senhor Zé Nunes.

* Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, Estudos Portugueses e Franceses, Técnico Superior Assessor Principal da Câmara de Aveiro – reformado (página do autor em Aveiro e Cultura).

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