
Portugal partilha com Espanha uma rede ferroviária que está bem distribuída pela Península Ibérica. Não chega a todos os cantos, mas está bastante distribuída pelo território.
Por Miguel Rebelo de Sousa *
Essa rede ibérica é também a principal vantagem que temos em termos de mobilidade ferroviária e é conveniente que seja alavancada.
Por isso, é da maior importância potenciar o transporte ferroviário e, daí, conseguimos rapidamente identificar as ligações de alta velocidade entre Lisboa – Porto – Vigo e Lisboa – Madrid como prioridades absolutas para o transporte de passageiros, mas que de forma indireta também beneficiarão o transporte de mercadorias, dado que passarão a dispor de uma Linha do Norte com mais capacidade. Estas ligações permitirão potenciar a mobilidade e atividade económica entre territórios de cidadãos e empresas que pretendem cada vez mais aproximar-se e trabalhar em conjunto a um nível muito superior. Por todas as razões, política, social, económica, cultural e até desportiva.
E isso exige de todos um compromisso com investimento, que tem de ser reprodutivo.
É um investimento de longo prazo, essencial para uma visão estratégica de futuro para a mobilidade ibérica e que exige um amplo consenso político, quer em termos de investimento, quer em termos de políticas públicas, que devem ser consequentes e coerentes, alinhadas com os compromissos estabelecidos no Pacto Europeu Ecológico, promovendo o modo de transporte mais sustentável e, assim, reduzindo as emissões de CO2 e aumentando a competitividade da economia nacional.
Mas, se pretendemos apostar no futuro da mobilidade ibérica, não podemos fazê-lo hipotecando o presente e tudo o que já se conquistou. E isso começa por se procurar minimizar os impactos das obras naqueles que já utilizam hoje a rede ferroviária e que vão sofrer durante a execução dessas obras, em termos operacionais e financeiros.
Foi uma opção avançar com obras em simultâneo nos vários eixos da rede ferroviária, mas isso tem um custo que é da maior importância ter consciência, que deve ter sido ponderado pelo Estado português e que é necessário colocar em cima da mesa.
O desafio de crescimento da quota modal da ferrovia e de executar um plano de investimentos ambicioso, mantendo em operação um mercado de transporte ferroviário é comum, com problemas semelhantes e Portugal e Espanha devem considerar-se parceiros nesse percurso.
É fundamental proteger o mercado atual, pois o pior que pode acontecer é desvalorizar esses impactos, que afetarão diretamente a qualidade do serviço prestado, que levarão a custos operacionais acrescidos e correspondente perda de competitividade da ferrovia e que podem colocar em causa a credibilidade da ferrovia, bem como a fiabilidade, que é um valor inegociável na ferrovia.
Os clientes que utilizam hoje a ferrovia querem e têm de poder continuar a recorrer à ferrovia, sabendo que no futuro poderão utilizar ainda mais a rede ferroviária, com uma qualidade de serviço superior e maiores níveis de eficiência operacional.
Se é verdade que o objetivo do plano de investimentos é colocar à disposição do mercado uma infraestrutura mais moderna, eficiente, com mais capacidade de assegurar uma qualidade de serviço melhor, também é verdade que não se pode afastar os clientes até esse dia, esperando que por magia eles regressem à ferrovia anos depois.
É, por conseguinte, da maior importância compreender e encontrar soluções que viabilizem a continuidade da ferrovia ao longo destes anos de transição (com obras), como parte de um esforço comum para o crescimento da adesão do mercado à ferrovia. Temos uma vantagem que facilita esta relação: os operadores ferroviários que circulam em Portugal também circulam em Espanha. Temos ainda associações de empresas ferroviárias que representam os operadores nos dois países, que conhecem bem a realidade dos dois lados da fronteira e isso facilita muito a comunicação e interação entre todos.
Por essa razão, Portugal e Espanha devem assumir esse objetivo comum, de forma genuína, independentemente da cor partidária dos respetivos governos, ambos comprometidos com um desígnio que é querido e ambicionado pelos cidadãos e pelas empresas dos dois países, e que, também por essa razão, deve ser visto como um todo, de forma integrada. O desafio de crescimento da quota modal da ferrovia e de executar um plano de investimentos ambicioso, mantendo em operação um mercado de transporte ferroviário é comum, com problemas semelhantes e Portugal e Espanha devem considerar-se parceiros nesse percurso.
Se existe uma visão de crescimento da importância estratégica da Península Ibérica em termos logísticos, de investimentos nos Portos, na ligação ao Atlântico e Mediterrâneo, entre a Europa e Norte de África, temos de percorrer esse caminho, de forma determinada e inteligente, garantindo que conseguimos mostrar ao mercado as nossas vantagens competitivas e que temos uma abordagem construtiva, de parceria e orientada ao cliente, entregando confiança, trabalho, credibilidade, humildade e sem sobrancerias.
A colaboração técnica e política que já existe tem de ser levada a um nível de profundidade maior, de forma a garantir uma efetiva articulação entre as partes, com mecanismos na rede ibérica que promovam a continuidade do serviço ferroviário, com redundância dentro de uma rede que já é ibérica, potenciando a circulação e a prestação de serviços de transporte viáveis, sustentáveis do ponto de vista financeiro, e que sirvam os interesses dos seus clientes, quer seja no que diz respeito ao transporte de passageiros, como ao transporte de mercadorias, que já hoje circula nos dois países de forma continuada e diária.
Sabendo que o mercado espera um período de convivência de obras e operação ferroviária por alguns anos, devemos então fazer uma gestão de expectativas e partilha de informação mais proativa entre as partes, até de articulação no desenvolvimento e execução de obras, para esta convivência ser possível e financeiramente sustentável. Gestores de infraestrutura, operadores ferroviários, associações empresariais, portos, terminais, clientes e operadores logísticos dos dois países devem promover maior proximidade entre as partes. Vai ser necessário maior alinhamento, articulação, mais flexibilidade na resposta e agilidade das partes, para garantir que o sistema como um todo consegue ultrapassar as dificuldades, que existirão.
O investimento que hoje está a ser realizado na ferrovia é não só bem-vindo como indispensável para assegurar a modernização e o desenvolvimento do sistema ferroviário. Contudo, este esforço não pode comprometer a continuidade e a qualidade da operação em curso. A exploração ferroviária constitui um ativo estratégico que importa preservar e valorizar; caso contrário, o próprio investimento corre o risco de se transformar numa parte do problema, induzindo uma redução da utilização da ferrovia cujos efeitos poderão revelar-se difíceis, ou mesmo impossíveis, de reverter.
* Director Executivo da APEF – Associação Portuguesa de Empresas Ferroviárias. Artigo publicado no site Transportes & Negócios.
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