Três mulheres.

Em 2026, a inteligência artificial em Portugal deixou de ser apenas um tema de conferências, startups e curiosidade tecnológica.

O país entrou numa fase mais prática, em que a conversa já não gira só em torno do que a IA “pode vir a fazer”, mas sim de como está a ser integrada na economia, nos serviços públicos, na criação de conteúdos e nas relações digitais do dia a dia. Essa mudança é visível tanto nas políticas públicas como no mercado: o Governo português aprovou a Agenda Nacional para a Inteligência Artificial, inserida no Plano de Ação 2026–2027 da Estratégia Digital Nacional, com a ambição explícita de usar a IA como motor de competitividade, produtividade e valor público.

Um dos sinais mais fortes desta nova etapa é que Portugal já não fala de IA apenas como inovação abstrata. A Agenda Nacional para a IA define princípios como inovação responsável, foco estratégico, Estado como catalisador e orientação para casos de uso concretos e escaláveis. Ao mesmo tempo, a Comissão Europeia observa que Portugal tem boa base em conectividade e serviços públicos digitais, mas ainda enfrenta dificuldades na adoção de IA pelas empresas e nas competências digitais de base. Em outras palavras: há infraestrutura e vontade política, mas o verdadeiro desafio está em transformar isso em adoção massiva e capacidade operacional.

É neste contexto que aparecem algumas das tendências mais visíveis da IA em Portugal. A primeira é a passagem dos pilotos para a implementação. A própria documentação oficial portuguesa coloca foco nas PME, na Administração Pública e na ligação entre universidades, empresas e Estado. Há também referência clara ao reforço da investigação fundamental, ao apoio à investigação aplicada, à expansão de doutoramentos em empresas e administração pública, e à necessidade de reter talento. Isto mostra que a tendência portuguesa não é apenas “usar ferramentas prontas”, mas tentar criar um ecossistema mais completo, com investigação, adoção e transferência de conhecimento.

A segunda tendência é a explosão da IA generativa para criação de conteúdos. Em Portugal, como no resto da Europa, texto e imagem foram apenas o início; o vídeo tornou-se o novo território de maior interesse comercial e cultural. Isso acontece porque o vídeo junta várias promessas ao mesmo tempo: velocidade de produção, personalização, redução de custos e potencial de viralização. Ferramentas que permitem descrever uma cena por prompt, escolher estilo visual, orientação e número de variantes respondem muito bem a uma lógica contemporânea de produção rápida para redes sociais, marketing, fantasia digital e consumo privado.

Dentro desta tendência, um exemplo claro é a página portuguesa da Joi dedicada ao Gerador de vídeos com IA. A plataforma apresenta o produto como um gerador avançado de vídeos personalizados, com criação gratuita inicial, escolha de número de vídeos, estilos artísticos e orientação do conteúdo. A mesma página destaca “anime, hiper-realismo e até 3D” como estilos disponíveis e enquadra o produto como ferramenta para transformar imaginação em vídeos gerados por IA. Ao mesmo tempo, o site deixa explícito que se trata de conteúdo adulto e exige confirmação de idade superior a 18 anos. Isso é importante porque mostra duas tendências simultâneas do mercado: primeiro, a normalização do vídeo generativo como produto de consumo; segundo, a fragmentação do mercado em nichos cada vez mais específicos, incluindo entretenimento adulto e fantasia personalizada.

Em termos culturais, isto também diz muito sobre Portugal. O utilizador português já não consome apenas tecnologia “vinda de fora” como algo distante. Plataformas localizadas em português, com linguagem adaptada e interfaces acessíveis, tornam a IA mais próxima do utilizador comum. Quando uma ferramenta como a Joi apresenta opções simples de prompt, estilos, controlo visual e acesso em português, ela reduz a barreira de entrada. A IA deixa então de parecer uma tecnologia para engenheiros e passa a parecer uma ferramenta quotidiana de criação. Esse é um dos grandes movimentos de 2026: a democratização da geração multimédia, ainda que com todas as discussões éticas que isso traz.

A terceira tendência forte é o crescimento dos AI companions, ou companheiros de IA. Este já não é um fenómeno marginal. O European Data Protection Supervisor incluiu os AI companions entre as seis tendências relevantes no relatório TechSonar 2025–2026, ao lado de temas como agentic AI e assistentes de programação. Isso é um sinal importante: os companheiros de IA passaram a ser vistos não apenas como curiosidade de internet, mas como categoria tecnológica com impacto real em privacidade, comportamento, dependência emocional e desenho de produto.

Na prática, os AI companions crescem porque oferecem algo que ferramentas tradicionais não ofereciam tão bem: continuidade relacional. Em vez de apenas responder perguntas, eles conversam, lembram preferências, simulam afeto, mantêm personagens estáveis e criam a sensação de vínculo. Em vários mercados, estes sistemas são apresentados como amigos, confidentes, parceiros românticos, avatares de roleplay ou apoio emocional. Pesquisadores do Emotional AI Lab descrevem precisamente essa amplitude de usos, incluindo conversa, aconselhamento, apoio emocional e fins românticos ou sexuais. Para Portugal, isso importa porque o mercado local tende a absorver tendências digitais globais muito rapidamente quando estas chegam já traduzidas, mobile-first e com baixo custo de acesso.

A Joi também se encaixa neste movimento mais amplo. Mesmo na página do gerador de vídeos, a navegação mostra áreas como “Conversas”, “Criar personagens”, “Gerar imagens”, “Gerar vídeos” e “Hope”, sugerindo um ecossistema em que geração visual e interação conversacional se reforçam mutuamente. Isso é precisamente uma das marcas dos AI companions modernos: eles deixam de ser só chatbots e passam a combinar texto, persona, imagem, vídeo e fantasia de continuidade. Ou seja, o companheiro de IA já não é apenas uma janela de chat; é uma experiência multimodal.

Mas esta tendência traz também riscos claros. O avanço dos companheiros de IA ocorre num momento em que a Europa reforça as exigências de transparência, documentação e mitigação de risco para modelos de IA de propósito geral. Embora nem todo companion esteja classificado da mesma forma regulatória, a direção geral é evidente: quanto mais uma plataforma influencia emoções, decisões ou comportamentos, maior será a pressão por segurança, prestação de contas e clareza sobre o que é simulação e o que é serviço. Em Portugal, isso ganha peso extra porque a estratégia nacional insiste em “inovação responsável” e em pôr a tecnologia ao serviço da sociedade, não apenas do crescimento bruto.

Outra tendência portuguesa importante é a combinação entre IA e setor público. O Governo fala explicitamente do Estado como catalisador e da IA como instrumento para reformar serviços públicos, melhorar interoperabilidade, reforçar produtividade e acelerar a digitalização. Isso significa que, no caso português, a IA não está a ser pensada apenas para marketing, media ou apps de entretenimento. Está também a ser tratada como infraestrutura de gestão, apoio à decisão, simplificação administrativa e modernização institucional. Esse ponto diferencia Portugal de narrativas mais superficiais, em que IA aparece apenas como moda de consumo.

No fundo, as tendências de IA em Portugal em 2026 podem ser resumidas assim: mais investimento público, mais pressão para adoção empresarial, mais foco em competências, mais ferramentas generativas acessíveis e um crescimento visível das experiências relacionais com IA. O caso do Gerador de vídeos com IA da Joi mostra como a geração audiovisual personalizada está a tornar-se um produto direto para utilizadores comuns. Já o crescimento dos AI companions mostra que a próxima fronteira não é apenas criar conteúdo, mas criar presença simulada, interação contínua e laços digitais. Portugal está a entrar neste ciclo não como observador passivo, mas como um mercado onde política pública, ecossistema tecnológico e consumo digital começam finalmente a alinhar-se.

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