Taxas de juro, BCE, inflação

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Gráfico.
Comercio 780

Ainda me recordo bem quando a responsável máxima do BCE, Christine Lagarde, em novembro de 2021 afirmava que “muito provavelmente” as taxas de juro da Zona Euro não iriam subir até ao final do ano de 2022 e que se houvesse subidas as mesmas só deveriam acontecer em 2023. Pois bem, os aumentos começaram mais cedo do que o esperado, e o que para uns parecia ser uma “inflação transitória”, para outros parecia um “risco de hiperinflação”.

Por Vitor Madeira *

Importa referir que o BCE já não subia a taxa de juro desde 2011. Para além disso, a taxa de juro de depósito ficou negativa de junho de 2014 até julho de 2022. Já pensaram em taxas de juro negativas?

Foi isto que o nosso Banco Central fez. Pagavam-nos para que pedíssemos dinheiro emprestado, incentivando ao crédito, desincentivando à poupança, e aumentando o consumo e o investimento. Com o início da pandemia, esta explosão monetária em circulação começou a ser desmedida, o que iria ter repercussões na economia real mais tarde. Todos nós (economistas) sabíamos disso, mas não queríamos acreditar.

Entretanto, as economias regressaram à normalidade, a explosão monetária já estava em circulação, as pessoas estavam eufóricas porque se sentiam “livres”, havia excesso de poupanças e o nível de endividamento no crédito ao consumo bateu nos mínimos. Todo este efeito monetário, aliado ao efeito psicológico de liberdade pós-pandemia, foram os reagentes certos para o início de um caminho inflacionário. Os preços começaram a subir lentamente, começando logo pelas matérias primas como o petróleo, cobre, gás natural, ferro, alumínio, entre outros. Porém, estes efeitos acabaram por ser negligenciados.

Já em novembro de 2021, os mercados começaram a perceber que a inflação poderia ser mais grave do que o esperado. Assistimos às primeiras correções nos principais índices acionistas (S&P500, DAX30, Nasdaq100…), sinalizando que o caminho do “dinheiro fácil” e o “crescimento sem precedentes” poderiam estar a chegar ao fim. Em janeiro de 2022, já a inflação pairava na economia e era bastante forte. A Zona Euro registou os 5,1% de inflação, mas nesta altura ainda ninguém se preocupava com a subida dos preços. A preocupação prendia-se com estabelecer os níveis de consumo e resolver os problemas derivados da pandemia, como as vacinas e as máscaras.

Para acelerar mais a escalada dos preços, em fevereiro de 2022 a Rússia decidiu invadir a Ucrânia, deixando toda a Europa atordoada. A falta de matérias-primas, como os cereais e as matérias energéticas, aumentaram ainda mais a pressão inflacionária. Como tal, vimos novamente os preços do petróleo, gás natural, milho, trigo, soja, fertilizantes, cobre, e outros, a subirem agressivamente. Assim, aquela que parecia ser uma “inflação transitória”, estava agora a ser real, com a inflação a atingir os 8,1% em maio último. Importa referir que a taxa de juro na facilidade de depósitos nesta altura estava fixada nos -0,5%. Sim, ainda era negativa!

Entretanto, em julho o BCE decide intervir com uma subida na taxa de juro de 0,5%, quando já a inflação estava completamente descontrolada e a atingir os 8,6%. A batalha inflacionária continuava e a população começara a sentir os primeiros sinais agressivos, com a gasolina, a eletricidade e a alimentação a dispararem nos preços. Em novembro, a inflação atinge um máximo de 10,6%. Nesta altura já não restavam dúvidas de que a inflação estaria descontrolada. O consumo teimava em não diminuir. Os preços das casas atingiam recordes. Os bancos centrais continuam sua política de aperto monetário para fazer face à situação da escalada dos preços e vemos as taxas de juro a galopar. Agora, surge um novo problema: as prestações dos empréstimos bancários começam a ficar mais caras, deixando a população com menor poder de compra.

No momento da redação deste artigo (final de março de 2023), as taxas de juro já estão nos 3,5% e a inflação nos 8,5%, o que significa que a batalha ainda não acabou e parece estar longe de terminar. Devemos ter noção que quando a economia atinge períodos de grande inflação fica desregulada, e para que os níveis normais de preços sejam atingidos é necessário tempo, taxas de juro elevadas, reduções de consumo e diminuição da atividade económica.

Assim, deveremos esperar que o BCE continue as suas políticas de aperto monetário, reduzindo os seus ativos do balanço e aumentando as taxas de juro. Estas medidas deverão arrefecer a atividade económica, levando os preços a cair. Devemos também ter em mente que o facto de o Banco Central ter demorado tanto tempo a reagir à inflação terá consequências no futuro. Neste caso em concreto significa que, provavelmente, as taxas de juro deverão subir mais do que o esperado e deverão ficar altas por mais tempo, levando a que as famílias e as empresas tenham problemas de liquidez.

Deste modo, resta-nos saber se vamos atingir uma inflação de 2% com um “soft landing” ou com uma aterragem brusca, com uma recessão profunda e uma crise grave. Estas são as questões que ficam para o futuro.

* Analista XTB. Artigo publicado originalmente no site Diário Imobiliário.

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