
A posição da Agência Internacional de Energia (AIE) veio reforçar uma preocupação que o setor do Renting tem vindo a assinalar há vários anos: os apoios públicos à eletrificação do parque automóvel continuam excessivamente concentrados nos veículos novos, ignorando sistematicamente o mercado de usados. Esta é uma lacuna relevante numa realidade, como a portuguesa, em que cerca de 80% das transações de automóveis dizem respeito a veículos usados.
Por Pedro Sobral *
Uma política que se concentra numa minoria do mercado dificilmente pode ser considerada uma política de transição abrangente. Mais do que uma questão setorial, trata-se de um desafio económico, social e ambiental para o país. Ao concentrar os apoios na aquisição de veículos novos, deixa-se de fora uma grande parte dos portugueses que não dispõe dos recursos necessários para adquirir um automóvel elétrico novo, mas que poderia aceder à mobilidade elétrica através de um veículo usado, certificado e a um preço mais acessível.
Em 2025, os veículos elétricos representaram 22% das matrículas de veículos novos em Portugal, um valor acima da média europeia, e um resultado positivo, que reflete a maturidade do mercado e os incentivos existentes. O Renting foi responsável por adquirir 1 em cada 5 dos veículos elétricos ligeiros novos vendidos, numa produção total de mais de 42 mil viaturas ligeiras novas adquiridas pelo setor, que gere 146 mil viaturas. No entanto, a realidade do parque automóvel nacional continua a ser muito diferente. Os veículos elétricos representam ainda uma fração reduzida da frota em circulação, evidenciando que o ritmo de renovação do parque automóvel permanece insuficiente para atingir os objetivos de descarbonização.
A expansão de um mercado de usados elétricos dinâmico e confiável é, por isso, uma condição essencial para acelerar esta transformação. Nos próximos anos, milhares de veículos elétricos provenientes de contratos de Renting chegarão ao mercado de usados, constituindo uma oportunidade única para democratizar o acesso à mobilidade elétrica e acelerar a renovação do parque automóvel nacional. Na prática, o renting funciona como uma ponte entre o mercado dos veículos novos e o mercado dos usados, permitindo que a inovação tecnológica deixe gradualmente de estar reservada a uma minoria e passe a estar acessível a um número crescente de famílias e empresas.
Contudo, é relevante assinalar algumas das preocupações, que por vezes são mitos, que continuam a limitar o desenvolvimento deste mercado. Entre os principais destacam-se a falta de informação transparente sobre o estado de saúde das baterias, a incerteza quanto ao valor residual dos veículos, a ausência de incentivos específicos para a aquisição de usados elétricos e a inexistência de mecanismos de certificação amplamente reconhecidos pelos consumidores. Não são problemas novos. São problemas que têm solução e para os quais o setor tem vindo a desenvolver soluções e já apresentou propostas concretas junto das entidades competentes.
A própria Agência Internacional de Energia recomenda a criação de apoios direcionados à aquisição de veículos elétricos usados, especialmente para famílias de baixos rendimentos, motoristas profissionais e PMEs. A ALF acompanha esta recomendação e defende que este apoio deve ser acompanhado de um regime fiscal que trate com equidade os usados face aos novos. Não é razoável que a política pública incentive apenas quem tem capacidade financeira para adquirir um automóvel elétrico novo, deixando sem resposta uma parte significativa da população.
Infelizmente, em Portugal, não se tem assistido à implementação de apoios direcionados para esta componente crucial do mercado elétrico. Acresce que os mecanismos de incentivo atualmente existentes nem sempre reconhecem o papel que o Renting desempenha na introdução de veículos elétricos no mercado e na criação da futura oferta de usados elétricos. Qualquer estratégia séria de transição energética e de mobilidade em Portugal deverá necessariamente contemplar o Renting. Neste sentido, seria importante que tanto o Ministério do Ambiente e Energia, como o Ministério das Infraestruturas e Habitação olhassem para este tema à luz das melhores práticas europeias e da realidade do mercado nacional.
A descarbonização dos transportes não será alcançada apenas através da venda de veículos novos. Portugal continua a ter um parque automóvel envelhecido e os transportes contribuem para as emissões associadas ao consumo de energia. A escala da transformação necessária exige soluções capazes de chegar a um número muito mais alargado de cidadãos e empresas, algo que apenas um mercado de usados elétricos desenvolvido, de qualidade certificada e eficiente poderá assegurar.
O setor do Renting continua a assumir um papel central na introdução de veículos elétricos em Portugal, contribuindo ativamente para a criação de um mercado de veículos elétricos usados mais eficiente e dinâmico. A solidificação desta realidade depende da definição de políticas públicas que reconheçam este componente de mercado como uma parte central da transição energética, que tardam em chegar.
* Diretor de Renting da ALF – Associação Portuguesa de Leasing, Factoring e Renting
Artigo publicado no site Ambiente Magazine.
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