Porto de Aveiro.

O futuro dos portos não se joga apenas em betão, cais, pórticos e calados. Joga-se, cada vez mais, em pessoas altamente qualificadas.

Por Iris Delgado *

2026 não tem sido, de todo, um ano neutro. Nos Estados Unidos, as eleições intercalares de 3 de novembro vão renovar todos os 435 lugares da Câmara dos Representantes e 35 lugares do Senado, com impacto potencial na política comercial, energética, industrial e externa norte-americana até 2028. Para Portugal, isto não é uma nota de rodapé de política internacional. A guerra na Ucrânia continua a pesar sobre sanções, energia, defesa e transportes europeus; no Médio Oriente, a crise no Estreito de Ormuz expôs novamente a vulnerabilidade das rotas marítimas críticas, por onde passa cerca de um quarto do comércio marítimo mundial de petróleo, além de gás natural liquefeito e fertilizantes. Ao mesmo tempo, a instabilidade no Mar Vermelho, os desvios pelo Cabo da Boa Esperança, as perturbações no Canal do Panamá, a subida dos custos de seguro e a fragmentação das cadeias de abastecimento mostram que o comércio internacional já não assenta apenas em eficiência, mas também em resiliência. É neste mundo mais instável, mais caro e mais regulado que Portugal tem de decidir se quer portos apenas operacionais ou portos verdadeiramente estratégicos.

Empregos

Também em Portugal há um ponto de situação a fazer. Cumpriram-se dois anos desde a posse do primeiro Governo liderado por Luís Montenegro, em 2 de abril de 2024; em 5 de junho de 2025 tomou posse o XXV Governo Constitucional, mantendo uma linha de continuidade governativa nas infraestruturas, economia, educação, ciência e inovação. A continuidade tem, desde logo, uma vantagem: permite deixar de anunciar intenções e passar à execução. E, no setor portuário, a execução já não pode ser adiada.

A Estratégia para os Portos Comerciais do Continente 2025-2035 — Portos 5+ — é, nesse sentido, e como já defendi, o documento certo no momento certo. Assume que os portos são infraestruturas competitivas de interesse público, reconhece a sua posição geoestratégica entre o Atlântico e o Mediterrâneo, admite a estagnação da última década e aponta para digitalização, descarbonização, conectividade, intermodalidade, segurança e integração porto-cidade. O Governo prevê cerca de três mil milhões de euros de investimento privado, 15 novas concessões, expansão do Terminal Sines XXI, lançamento do Terminal Vasco da Gama, melhorias ferroviárias em Leixões, Aveiro, Setúbal e Sines, portarias digitais, Janela Única Logística, inteligência artificial e rastreabilidade na cadeia de abastecimento.

Tudo isto é necessário. Mas não é, ainda assim, suficiente.

A pergunta que ainda não está suficientemente presente no debate público é simples: quem vai fazer isto acontecer? Quem vai preparar os concursos? Quem vai fiscalizar contratos de concessão que podem ir até 75 anos? Quem vai operar terminais automatizados? Quem vai gerir OPS, combustíveis verdes, metanol, amónia, GNL, comunidades energéticas, equipamentos inteligentes, cibersegurança, compliance ambiental, trabalho portuário, proteção ISPS, dados logísticos, alfândega digital e interoperabilidade ferroviária?

Transporte marítimo

O futuro dos portos não se joga apenas em betão, cais, pórticos e calados. Joga-se, cada vez mais, em pessoas altamente qualificadas.

Portugal não parte do zero. A Escola Superior Náutica Infante D. Henrique continua a ser a principal referência pública na formação superior marítima e portuária, com a Licenciatura em Gestão Portuária assumida como oferta nacional especificamente orientada para o Port Management; para 2026-2027, o guia da DGES indica 25 vagas neste curso. O Instituto Politécnico de Setúbal tem vindo igualmente a ganhar centralidade neste domínio, desde logo através da Pós-Graduação em Logística Marítima e Portuária, ministrada pela Escola Superior de Ciências Empresariais no contexto da Academia NEXUS e do Projeto Sines NEXUS, orientada para a qualificação em logística marítima, operações portuárias, intermodalidade e cadeias de abastecimento.

A isto soma-se agora um dado particularmente relevante: a aprovação, pelo Governo, da criação em Sines da nova Escola Superior de Sustentabilidade, Indústria e Tecnologias Digitais do Politécnico de Setúbal, futura unidade orgânica vocacionada para responder às necessidades de profissionais qualificados nas infraestruturas logísticas, energéticas, digitais e industriais do Alentejo Litoral. A tomada de posse da respetiva Comissão Instaladora, em junho de 2026, confirma que este deixou de ser apenas um projeto anunciado e passou a ser uma peça concreta na aproximação entre ensino superior, indústria, energia, porto e território.

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