
O exercício da medicina assenta na capacidade de compreender o sofrimento humano na sua complexidade, intervir de forma proporcional e acompanhar pessoas ao longo do tempo, ajudando-as a tomar decisões informadas sobre a sua saúde. É uma prática que articula ciência, julgamento clínico e relação, orientada para melhorar a vida concreta de quem procura cuidados. Não se esgota, por isso, na tecnologia disponível nem na capacidade de resolver doenças isoladas, por mais sofisticadas que estas sejam.
Por Paulo Santos *
“É muito mais importante conhecer o doente que tem a doença do que saber que doença o doente tem” – William Osler
Ser médico é construir uma relação de confiança com quem procura ajuda, saber ouvir, gerir a incerteza e decidir em contextos imperfeitos. É perceber que o percurso é dinamicamente escrito com o doente, no seu contexto, nos seus determinantes, na sua vida. Fazer medicina é, assim, muito mais do que aplicar ciência: é interpretar vidas concretas à luz desse conhecimento.
Se partirmos desta ideia essencial, a pergunta impõe-se com naturalidade: que médicos devem sair das universidades para cumprir estes objetivos?
A resposta obriga a olhar criticamente para a forma como estamos a formar futuros médicos. Persistem modelos centrados no hospital universitário, como se esse fosse o espaço privilegiado – ou sequer suficiente – para aprender medicina. É certo que a diferenciação técnica e a especialização são indispensáveis para a abordagem de doenças específicas e para o avanço do conhecimento médico e que o hospital desempenha aí um papel insubstituível. Mas a prática médica não se esgota na resposta à doença instalada. Inclui vigilância de saúde, prevenção, identificação precoce de problemas e acompanhamento contínuo das pessoas ao longo da vida, numa abrangência que se concretiza, maioritariamente, fora do hospital. A maioria dos contactos das pessoas com o sistema de saúde ocorre fora deste contexto, em proximidade, onde os problemas são menos definidos, mais prolongados no tempo e profundamente influenciados pelo contexto de vida.
Quando a formação se concentra em ambientes em que os casos são selecionados, organizados e filtrados, acaba por criar uma perceção inevitavelmente distorcida da prática clínica, tanto mais impactante quanto mais cedo for introduzida no percurso curricular. Os estudantes aprendem a reconhecer doenças bem delineadas, em estádios avançados ou em formatos “didáticos”, mas têm menos oportunidade de lidar com aquilo que caracteriza o dia-a-dia médico: sintomas inespecíficos, multimorbilidade, decisões progressivas e acompanhamento longitudinal, bem como de trabalhar em equipa, integrar cuidados e assumir liderança clínica em contextos cada vez mais multidisciplinares. Assume-se que, no final, tudo fará sentido e que o médico recém-formado conseguirá juntar as peças dispersas para reconstruir o todo da pessoa. E acrescentam-se mais alguns meses de formação geral a um curso já muito longo, na tentativa de compensar um défice que deveria ter sido integrado desde o início do percurso formativo.
A prática clínica, tal como é vivida pelas pessoas, raramente se apresenta em capítulos organizados. Frequentemente, os sintomas surgem como inquietação vaga, desconforto difícil de descrever ou agravamento de problemas antigos. A comorbilidade não é um detalhe: é a regra em vidas marcadas por estilos de vida, múltiplos fatores de risco e condições que apenas por comodismo pedagógico são fragmentadas em diferentes disciplinas. Esta realidade exige tempo, continuidade e capacidade de adaptação. Ensinar medicina ignorando esta realidade é, na prática, formar profissionais para um exercício incompleto da profissão.
Por isso, a exposição a ambientes do mundo real não é um complemento desejável; é uma condição essencial. Significa integrar os estudantes em contextos onde a prática não é previamente filtrada, onde a diversidade de situações é a norma e onde a relação médico-doente se constrói de forma continuada. É nesses espaços que se aprende a gerir a incerteza, a comunicar de forma eficaz, a priorizar intervenções e a compreender o impacto real das decisões clínicas.
Por outro lado, o ensino médico continua excessivamente centrado na doença como objeto principal de aprendizagem, em detrimento da pessoa que a experiencia. Esta abordagem pode produzir profissionais tecnicamente sólidos, mas fragiliza a capacidade de cuidar de forma eficaz. A doença não existe isolada; está sempre inserida num contexto pessoal, familiar e social que condiciona a sua evolução e a adesão às propostas terapêuticas.
Formar médicos para o século XXI implica ensinar a olhar para além do diagnóstico. Implica compreender os determinantes sociais da saúde, reconhecer as barreiras ao acesso aos cuidados e adaptar as intervenções à realidade de cada pessoa. Implica valorizar competências como a comunicação, a empatia clínica e a tomada de decisão partilhada, não como acessórios, mas como partes integrantes do ato médico.
É precisamente neste ponto que se tornam mais visíveis as resistências à mudança. A ideia de que a formação médica ultrapassa os muros hospitalares é, muitas vezes, encarada como uma ameaça. Talvez porque expõe os limites dos modelos centrados em serviços específicos. Talvez porque obriga a comparar formas de exercício médico, algumas mais próximas das necessidades reais das populações, outras mais ancoradas em lógicas institucionais. Talvez porque persistam interesses organizativos onde a presença de estudantes é instrumentalizada para responder a dinâmicas assistenciais e justificar cargas horárias.
Mas a formação médica não pode ser orientada por estas condicionantes. As universidades existem para servir a sociedade, não para perpetuar equilíbrios institucionais ou acomodar arranjos internos. E a sociedade precisa de médicos capazes de responder aos seus problemas reais, que vão muito além daqueles que cabem nas tipologias mais ensináveis no hospital.
Isto não implica diminuir a importância do ensino hospitalar. O contacto com situações de elevada complexidade, com a urgência e com a intervenção diferenciada é indispensável. O que está em causa é o equilíbrio. Um modelo formativo robusto deve refletir a diversidade da prática médica, distribuindo experiências de forma coerente com aquilo que os futuros médicos irão encontrar.
Se quisermos alinhar a formação às necessidades da população, teremos de fazer escolhas claras desde muito cedo no percurso formativo. Logo nos primeiros anos, é fundamental que os estudantes compreendam que a medicina começa nas pessoas, nas suas vidas concretas, e não apenas na biomedicina ou na catalogação de doenças que surgem episodicamente e que ajudaremos a orientar. Isso exige integrar, de forma estruturada, os contextos de cuidados de saúde primários e comunitários, valorizar o ensino fora do hospital, repensar os critérios de avaliação e reconhecer que cuidar de pessoas em contextos reais é uma competência central, não periférica.
No fim, a questão mantém-se simples, mas particularmente exigente: que médicos queremos formar?
Queremos médicos que saibam lidar com a complexidade da vida real, que consigam acompanhar pessoas ao longo do tempo, que integrem ciência e contexto e que reconheçam que a prática médica se constrói tanto na relação como no conhecimento. Se é este o objetivo, então o ensino tem de refletir essa ambição.
Porque não basta ensinar medicina. É preciso ensinar a exercê-la onde ela verdadeiramente acontece. É preciso ensinar o que é, verdadeiramente, ser médico.
* Médico de família, professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto Artigo publicado originalmente no site Healthnews.pt
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