Que bons ventos trazem consigo as paisagens de Aveiro?

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Canal de São Roque, Aveiro.

Dessa fusão entre tradição e contemporaneidade, emerge a Ria de Aveiro como uma galeria de arte fluida, integrando o sagrado e o profano nas cores e pinturas dos moliceiros – algo que nem Dante, em sua “Divina Comédia”, poderia prever.

Por Luis Dantas *

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Na antiguidade, os povos do mar costumavam nomear os ventos. Assim, tratavam os bons ventos, ou seja, aqueles que conduziam as embarcações de forma segura até seu destino, como “ob portus”, que significa “em direção ao porto”. Desse vocábulo, origina-se a palavra oportunidade, que denota um momento favorável ou benéfico a alguém.

Atualmente, continuamos em busca de ventos propícios para guiar-nos a portos seguros e, conforme o filósofo Espinoza, à procura de oportunidades para ‘bons encontros’, que ampliem nossa potência de viver e aprender.

Também na educação, surge a necessidade de encontros onde o humano e o ambiente estejam presentes e integrados. Um espaço de conexão entre o mundo e seus habitantes, aqui denominado “paisagem linguística”, que serve como recurso para a leitura da cidade e como meio para potencializar aprendizagens de forma dinâmica e flexível em diferentes espaços sociais, afetivos e identitários.

Acreditamos que as paisagens multicoloridas da cidade de Aveiro, formadas por diferentes sons, imagens, conjuntos simbólicos, e características de seus habitantes, trazem consigo ventos oportunos e a possibilidade de integrar práticas pedagógicas e ensinar de forma transversal. Desse modo, pode-se explorar, desde a história das “gentes da Ria”, os seus hábitos, a sua arte e tradições que atravessam o tempo, como também promover maior abertura para a diversidade linguística e cultural, especialmente devido ao caráter cada vez mais plural da cidade.

Dessa fusão entre tradição e contemporaneidade, emerge a Ria de Aveiro como uma galeria de arte fluida, integrando o sagrado e o profano nas cores e pinturas dos moliceiros – algo que nem Dante, em sua “Divina Comédia”, poderia prever. As doces brisas podem também conduzir até as numerosas pastelarias da cidade, oferecendo um convite irresistível para explorar a culinária local e a tradicional doçaria conventual. Até mesmo o admirável Eça de Queirós não resistiu, mencionando os ovos moles de Aveiro em sua obra-prima “Os Maias”.

As paisagens multissensoriais de Aveiro trazem consigo os cálidos ventos dos bons encontros. Quem se entrega às correntes de encontro que ocorrem em suas ruas e vielas, tem uma experiência também plurilíngue, pois a cada esquina, podem ser ouvidos diferentes idiomas falados por turistas e locais, promovendo ricos encontros interculturais como os inúmeros já presenciados pelo autor que vos escreve em conversas, passeios e interações diversas.

Os ventos da cidade podem, em algumas alturas, ser gélidos, mas também são fluidos e dinâmicos, e trazem novas perspectivas para que, a partir das paisagens linguísticas como local de aprendizagem de si e do outro, os indivíduos possam tornar-se cidadãos ativos e críticos na esfera local e global, por meio da reflexão e do incentivo à intervenção no contexto onde vivem, lutando contra as desigualdades e por um mundo mais justo, inclusivo e sustentável.

Que o novo ano traga bons ventos e oportunidades de novos encontros e aprendizados.

Os meus agradecimentos a Valentina Piacentini e à equipa do SKG-JC, assim como às professoras Helena Araújo e Sá e Ana Raquel Simões pela inspiração, incentivo e colaboração.

* Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro. Artigo publicado originalmente no site UA.pt.

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