Quando o céu, em vez de azul, nasce acastanhado

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Imagem em https://observar.ipma.pt/
Comercio 780

Estas poeiras para além de pintarem o céu de tons laranja – o que em termos visuais até poderia ser considerado uma atração – trazem impactos a diversos níveis, como na degradação da qualidade do ar, devido às elevadas concentrações de matéria particulada que criam na atmosfera.

Por Alexandra Monteiro *

A previsão meteorológica era de subida de temperatura e sem nuvens. E como tal, facilmente imaginámos um dia de sol, bonito e com céu azul, a contrastar com a chuva anterior. Mas isso não aconteceu. O céu para ser azul precisa que o sol apareça e que os raios se dispersem pela atmosfera. Só que o sol não conseguiu furar a extensa camada de poeira, transportada desde o deserto do Sahara.

E o que para alguns foi quase um sinal da guerra ao longe, na verdade foi mais um episódio de poeiras provenientes do Norte de Africa, potenciado pela depressão Célia que atravessa o nosso país.

Estas poeiras para além de pintarem o céu de tons laranja – o que em termos visuais até poderia ser considerado uma atração – trazem impactos a diversos níveis, como na degradação da qualidade do ar, devido às elevadas concentrações de matéria particulada que criam na atmosfera. Apesar do transporte destas poeiras estar a ser feito em altitude, têm atingido a superfície, onde vivemos e respiramos, e só nas últimas horas verificou-se um aumento da concentração deste poluente para níveis acima dos recomendados/legislados.

E os efeitos não são só ao nível da exposição e saúde humana – particularmente críticos para os grupos de risco como são as crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios. Estes efeitos negativos estendem-se a outros setores de atividade, como a produção de energia solar – pela deposição de poeira e redução da eficiência dos painéis solares; para a aviação, com potenciais danos no funcionamento dos reatores, e ainda no setor do turismo (pelo impacto visual), agricultura e pescas. Já para não falar de atividades que dependam da visibilidade atmosférica, como a astrofísica e a teledeteção. E, para além de tudo isto, a presença deste material particulado tem ainda interferência no sistema climático e em processos de eutrofização.

Apesar da origem natural, não antropogénica, os danos vão muito para além do ecossistema natural. Cabe-nos prever estes episódios e alertar para os seus efeitos, para que possamos minimizá-los – o que passará, por exemplo, pela mitigação da nossa exposição a estes poluentes atmosféricos.

A previsão é feita ao nível europeu, e também nacional, e pode ser consultada aqui: https://dust.aemet.es . E à semelhança da previsão meteorológica, falha, mas muito pouco!

* Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro. Artigo publicado originalmente no site UA.pt.

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