Pinheiro-bravo – uma espécie, várias florestas

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Os ecossistemas florestais fornecem muitos dos serviços do ecossistema fundamentais; para além de suprir necessidades básicas da população humana, afetam a sua segurança física e económica, desempenhando um papel crucial na conservação da biodiversidade e dos serviços de ecossistemas a nível global.

Por Paula Maia e Diana Rodrigues *

Estima-se que 45% da biodiversidade portuguesa está associada aos ecossistemas florestais o que revela o papel preponderante das florestas, no cumprimento de objetivos do desenvolvimento sustentável (ODS 2030). Representando um universo de mais de 700 000 ha de floresta, sendo a terceira maior formação florestal de Portugal Continental, o pinhal de pinheiro-bravo reveste-se da maior importância a nível ecológico e territorial.

O pinheiro-bravo é uma espécie nativa em Portugal, com características ecológicas que lhe permitem colonizar uma variedade de ambientes, desde o litoral ao interior do território continental. Sendo considerada uma espécie pioneira, está adaptado à colonização de áreas com solos pobres, como é o caso das dunas litorais, ou solos degradados e superficiais, em ambiente montanhoso.

Assim, na sua área de mais de 700 000 ha de ocupação em Portugal Continental, os povoamentos de pinheiro-bravo abrangem uma expressiva amplitude biogeográfica e variedade de tipologias, estando representados em 19% das áreas que integram a Rede Natura 2000 e em 27% do território incluído em áreas da Rede Nacional de Áreas Protegidas.

De acordo com o 6º Inventário Florestal Nacional (IFN6) verifica-se uma grande fragmentação da sua expressão territorial: apenas 11% da sua área se refere a manchas com mais de 50 ha de extensão, sendo que a maioria da sua ocupação (69%) está pulverizada em povoamentos com menos de 10 ha.

Vários dados do IFN6 sugerem que muitos dos pinhais não se enquadram na tipologia dos povoamentos dedicados à produção de madeira, que tipicamente são equiénios e puros. Na realidade, a maioria dos povoamentos (63%) são irregulares, ou seja, têm presença de árvores de várias classes de idade, em 52% dos pinhais ocorre mais do que uma espécie arbórea e em 31% da área da espécie ocorre regeneração natural de carvalho-alvarinho, entre outras espécies autóctones. Muitos pinhais também apresentam uma densidade de árvores muito inferior à que seria recomendada do ponto de vista da produção madeireira; 31% dos povoamentos têm menos de 50% de coberto arbóreo. Estes indicadores decorrem sobretudo do facto de, na maioria dos pinhais privados, praticamente não ocorrerem intervenções de gestão florestal, exceto pontuais cortes de árvores. Assim, muitos pinhais em Portugal aproximam-se mais do conceito de floresta semi-natural do que de plantações.

Em Portugal é comum a gestão do pinhal aproveitando a regeneração natural e a gestão florestal dos povoamentos é geralmente pouco intensiva. As práticas culturais com impactos potenciais mais relevantes para a biodiversidade são, na fase de instalação: preparação do terreno e controlo de vegetação espontânea total; ao longo do ciclo de produção: eventuais controlos de vegetação ou fogo controlado; corte raso no final do ciclo. O facto de a maioria das propriedades privadas serem de pequena dimensão e fragmentadas tende a limitar os potenciais impactos negativos descritos. A utilização de produtos fitofarmacêuticos não é uma prática comum.

As implicações que esta expressão territorial e práticas de gestão têm para a biodiversidade não são lineares. Por um lado, a elevada percentagem de pinhais com baixa intensidade de gestão, que se traduzem em povoamentos irregulares em termos de idades e alturas (63%) pode implicar uma maior biodiversidade pela presença de outras espécies arbóreas e arbustivas autóctones. Também é verdade que a falta de gestão pode levar a problemas ecológicos, como a presença de espécies lenhosas invasoras, com impactos negativos na biodiversidade e nas funções dos ecossistemas.

Por outro lado, o contexto biogeográfico condiciona a composição das comunidades que estarão presentes ao longo dos pinhais que ocupam o território nacional, não sendo de esperar encontrar comunidades comparáveis desde o litoral ao interior do país.

*  Investigadoras da Universidade de Aveiro – DBIO-CESAM. Excerto do preambulo do relatório “ECOPINE | BIO – Síntese do conhecimento sobre biodiversidade em pinhal-bravo”, publicação digital disponibilizada pelo Centro PINUS.

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