
Antes e depois de se tornar um dos primeiros quadros doutorados do Instituto da Conservação da Natureza, o Pi ensinou e orientou muitos alunos, dos mais diversos níveis de ensino, mas, acima de tudo, inspirou, deixou marca, método, seriedade e rigor, para além de um conhecimento profundo e de uma paixão desmedida pelo que fazia.
Por Carlos Fonseca *
Conheci o Pi no ano de 1994; estava ele a dar os primeiros passos como biólogo na Reserva Natural da Serra da Malcata. Eu, pela mão do seu conterrâneo e grande amigo Zéze (José Vingada, falecido em março de 2019), fui, enquanto estudante de Biologia, ajudá-lo a procurar indícios de presença de lince-ibérico na Serra da Malcata. Nessa altura, já se desconfiava de que este felino estava à beira da extinção em território nacional e encontrar uma pegada ou um excremento potencialmente de lince-ibérico era motivo de grande expectativa e, quase sempre, de grande festa.
O Pi era o líder no trabalho de campo, desde a planificação até à execução. Rigoroso, reservado, audaz, tantas vezes solitário, não desistia do seu objetivo e, assumidamente, causa de vida: devolver o lince-ibérico a Portugal. Foram muitos anos de persistência, muitos quilómetros percorridos, muitas reuniões, muitos planos, projetos, candidaturas e tentativas frustradas até que se começou a ver uma luz ao fundo do túnel, com a estratégia ibérica de recuperação do lince-ibérico, considerado, à data, o felino mais ameaçado do mundo. E, como Homem do terreno, do campo, o Pi mudou-se de malas e bagagem (poucas) para o Vale do Guadiana, liderando a equipa do programa de reintrodução do lince-ibérico em Portugal.
Recordo o seu entusiasmo pelo trabalho de campo, desde a Serra da Malcata até ao Vale do Guadiana, passando pelo Brasil, por São Tomé e Príncipe e por tantas outras latitudes. Era sempre emocionante acompanhar o Pi nas suas incursões pelas serras, pela Mata Atlântica, pelo Cerrado, pelo Pantanal, pelas florestas tropicais ou pelos montes do interior alentejano onde o inesperado estava sempre à espreita. O seu carácter aventureiro e explorador, associado à sua coragem e (alguma) imprudência, tornava cada saída de campo uma experiência única e inesquecível para todos os que tiveram a oportunidade de o acompanhar.
Em 2016, numa viagem que fiz a Mértola, o Pi ligou-me a dizer: “Tenta chegar pelas 17h00, para, às 17h30, estarmos a ver linces no monte”. E assim foi. Como que de um encontro agendado se tratasse, lá estávamos a observar linces à “hora marcada”, pelos montes alentejanos que, aos poucos, se tornaram também o seu habitat, a sua “casa”. O Pi ficava muitas vezes no campo, à noite, com os linces e com tantos outros animais, com os quais tinha, efetivamente, uma relação muito especial, um autêntico pacto. De entre eles, destacam-se os carnívoros, que foram o tema central da sua tese de doutoramento intitulada “Habitat-species interactions in a carnivore community”, que tive o privilégio de orientar, e que defendeu de forma brilhante na Universidade de Aveiro, em 2010.
Antes e depois de se tornar um dos primeiros quadros doutorados do Instituto da Conservação da Natureza, o Pi ensinou e orientou muitos alunos, dos mais diversos níveis de ensino, mas, acima de tudo, inspirou, deixou marca, método, seriedade e rigor, para além de um conhecimento profundo e de uma paixão desmedida pelo que fazia. E, com tanto que deu de si, trabalhando com muitos e muitas colegas e equipas multidisciplinares e de várias instituições, o lince-ibérico recuperou, efetivamente, na Península Ibérica, sendo, hoje em dia, considerado um dos projetos de conservação mais notáveis e exemplares a nível mundial.
Por tudo isto e pela sua extraordinária dimensão humana e pela entrega abnegada, devemos ser eternamente gratos ao Pi, o Homem-lince.
* Carlos Fonseca (DBIO & CESAM, Universidade de Aveiro). A propósito do falecimento de Pedro Sarmento, biólogo e coordenador no Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) do programa de reintrodução do lince-ibérico em Portugal. Artigo publicado no site UA.pt.
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