
Há águas que correm à superfície e águas que se infiltram. As primeiras vemos passar; as segundas atravessam o solo, alimentam nascentes e transformam paisagens. A Educação parece-se com esta segunda água: permeia a sociedade, liga saberes e alcança famílias, escolas, territórios e modos de (vi)ver.
Por Erickinson Lima e Larize Lima *
Na gestão do risco de desastres, esta infiltração é essencial. Educar para viver com os riscos é aprender a ler o lugar onde se vive: que perigos existem no meu concelho? Estou numa zona suscetível a cheias, movimentos de vertente, incêndios, erosão costeira ou tempestades? Sei agir sem energia ou apoio? Tenho um plano familiar? Dependo de alguém para evacuar, comunicar ou aceder a cuidados?
Episódios como a tempestade Kristin lembram-nos que fenómenos extremos não pertencem apenas às notícias distantes, mas são eventos cada vez mais frequentes e que nos levam a questionar se estamos verdadeiramente preparados para compreender o risco antes de ele se tornar dano. Num contexto de alterações climáticas, urbanização intensa e concentração de pessoas e infraestruturas em áreas expostas, a UNDRR (United Nations Office for Disaster Risk Reduction) sublinha que o risco aumenta quando eventos mais intensos se cruzam com urbanização insegura.
Na medida em que não é possível controlar os fenómenos naturais, podemos aprender a conviver com os seus impactos. A preparação e a resiliência não nascem só de obras, mapas ou tecnologias, mas também da literacia: interpretar avisos, reconhecer sinais no território, participar em exercícios de evacuação, construir planos escolares e formar comunidades para agir antes, durante e após um evento.
No entanto, a preparação só é plena quando inclui todos. Pessoas com necessidades específicas, idosas, crianças, grávidas, migrantes ou isoladas podem enfrentar barreiras adicionais na resposta aos desastres. A UNDRR reitera que as pessoas com deficiência são afetadas de forma desproporcional por desastres, quer pelo isolamento, quer pela falta de acesso a avisos ou a transporte adequado. A inclusão não pode ser um anexo ao plano de emergência; deve estar no centro. Não se trata de pensar para as pessoas com necessidades específicas, mas com elas.
A Educação para os riscos, como a água que se infiltra nos lugares menos óbvios, precisa chegar à família, à escola, à junta de freguesia, ao planeamento urbano, à proteção civil, aos currículos, aos media e às associações locais. Quando circula, transforma informação em consciência, consciência em preparação e preparação em sobrevivência.
Na gestão do risco de desastres, a Educação, portanto, salva vidas, especialmente quando responde a critérios de inclusão. Talvez possamos adaptar a célebre máxima de René Descartes e, em tempos de riscos sistémicos que culminam em catástrofes, reformulá-la para “penso o meu território, a minha vulnerabilidade e a do outro… logo, (r)existo”. Porque resistir e reexistir diante das catástrofes começa antes do desastre: começa na Educação.
* Erickinson Lima – investigador do Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro; Larize LimaDepartamento de Ambiente Ordenamento da Universidade de Aveiro & Núcleo de Portos e Estruturas Marítimas, Departamento de Hiráulica e Ambiente (NPE-DHA) do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, I.P. (LNEC). Artigo publicado originalmente no site UA.pt.
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