Cabine de tradução.

A língua portuguesa é muito traiçoeira, costuma dizer-se. Que o diga um jovem tradutor!

Nas últimas décadas do século passado, intensificavam-se as preocupações com o Ambiente e as conferências e encontros sobre este tema repetiam-se por todo o lado.

Os Países Baixos, que na altura estavam muito avançados na construção de ETARS, organizaram, no seu país, uma feira com incidência no assunto da moda.

Claro que tudo, na Europa e fora dela, quanto era “ bicho” com interesses no âmbito referido, compareceu. As conferências sucediam-se e uma delas versou sobre os “lixos”. O auditório estava repleto de representantes de todos os países. Portugal também lá estava com autarcas, cientistas, jornalistas, enfim a nata da sabedoria da altura, como não podia deixar de ser. Cada palestrante usava a sua própria língua e, para ser compreendido pela assembleia, havia aqueles fones que se punham nos ouvidos e se sintonizavam na língua que se pretendia. Como não havia ainda a IA (Inteligência Artificial) as traduções eram feitas por humanos.

Ora, na primeira parte da sessão, a tradução em português decorreu com toda a normalidade.

Chegou o intervalo e, após o coffeebreak do costume, algo aconteceu. Os rostos dos assistentes portugueses começaram por manifestar estupefação, depois sorrisos e a seguir, ouviram-se mesmo algumas gargalhadas.

O que estava então a acontecer? O tradutor tinha mudado e, o novo, pura e simplesmente, resolveu substituir a insonsa e difícil de pronunciar palavra “ lixo” por outra muito mais bonita, com uma maior sonoridade, isto é “ merda”. Assim, afirmava o tradutor, conforme ia ouvindo do palestrante, que a “ merda” devia ser recolhida, classificada, armazenada, reciclada e reutilizada, quiçá, na alimentação saudável dos humanos…

Bom, nesta altura, alguém se levantou e foi junto do staff da organização denunciar o que se estava a passar. O tradutor foi imediatamente substituído. Mas o que acontecera afinal? Veio a saber-se que o segundo tradutor era um jovem estudante que estava a aprender português na universidade local e que, para ganhar alguns trocos, fazia aqueles trabalhos de tradução.

Porém, estava hospedado em casa de emigrantes portugueses onde a palavra que mais ouvia era… a que então resolveu usar, por ser tão alegre e sonora e, sobretudo, repetida com frequência e em todas as circunstâncias!!!!!

Enfim! Uma grandessíssima…

Continuação de bom veraneio!

Jesus Zing

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