Porto de Aveiro.

A inteligência artificial está em todo o lado! Já lhe perguntamos que corte de cabelo nos favorece, o que fazer com três ingredientes esquecidos no frigorífico, como responder a um e-mail delicado e até como melhorar um texto que, muito provavelmente, já tinha sido escrito (ou revisto) por outra inteligência artificial. E, quando sobra tempo, perguntamos-lhe qual é o sentido da vida. Por isso, decidi fazer-lhe uma pergunta mais simples, pelo menos em aparência: como seria o porto comercial ideal?

Por Iris Delgado *

Esperava uma resposta carregada de tecnologia: gruas autónomas, navios sem tripulação, robots a circular nos terminais e algoritmos a comandar tudo a partir de uma sala de controlo digna de um filme de ficção científica.

Mas a resposta foi, pasme-se!, bastante menos cinematográfica. Segundo a IA, o porto ideal não é necessariamente o maior, o mais automatizado ou o que movimenta mais contentores. É aquele que funciona de forma previsível, coordena bem todos os intervenientes, liga eficientemente o mar ao território e cria valor para a economia que serve.

Dito de outra forma: o porto ideal não é apenas inteligente. É útil.

E talvez seja precisamente esta a principal lição da inteligência artificial para o setor portuário. A tecnologia pode otimizar cais, equipamentos e fluxos. Pode prever atrasos, organizar escalas, reduzir consumos e antecipar congestionamentos. Mas um porto de sucesso continua a depender de algo muito menos tecnológico: boa coordenação, decisões coerentes e capacidade de transformar infraestrutura em competitividade.

Um porto não deve, por isso, ser avaliado apenas pelo número de toneladas ou de TEU movimentados. Deve ser medido pela rapidez com que serve os navios, pela fiabilidade que oferece aos carregadores, pela qualidade das ligações ao território, pela capacidade de resistir a perturbações e pelo valor económico que ajuda a criar.

Esta distinção é particularmente importante numa altura em que a inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante para passar a integrar decisões operacionais, comerciais e logísticas.

Do ponto de vista da inteligência artificial, o primeiro atributo de um porto de sucesso seria a previsibilidade, ou seja, o porto ideal não tem filas: tem previsibilidade. Um porto pode ser rápido num determinado dia e ineficiente no seguinte. Pode possuir capacidade física, mas falhar na coordenação entre navios, terminais, alfândegas, transportadores rodoviários, operadores ferroviários e donos de carga. Para as cadeias logísticas, a incerteza é frequentemente mais penalizadora do que um tempo de trânsito ligeiramente superior, mas estável.

Não surpreende, portanto, que o Container Port Performance Index, desenvolvido pelo Banco Mundial e pela S&P Global Market Intelligence, utilize o tempo passado pelos navios no porto como uma das principais referências para comparar o desempenho portuário. Reduzir esse tempo permite não apenas aumentar a produtividade, mas também diminuir o consumo de combustível e as emissões associadas às escalas.

A inteligência artificial pode ajudar a prever horas de chegada, antecipar congestionamentos, planear a utilização dos cais, distribuir equipamentos, gerir parques de contentores e ajustar recursos às cargas esperadas.

Contudo, a IA não elimina automaticamente os atrasos. Um algoritmo só será eficaz se receber informação completa, fiável e atempada. Digitalizar processos fragmentados ou alimentar plataformas com dados de qualidade duvidosa significa apenas reproduzir ineficiências antigas em sistemas mais modernos.

O porto ideal é, assim, um porto onde todos os intervenientes trabalham sobre uma visão operacional comum.

O segundo atributo seria a capacidade de aprender continuamente.

Num porto convencional, muitas decisões são tomadas com base na experiência acumulada dos seus profissionais. Essa experiência continuará a ser indispensável. A diferença é que pode agora ser complementada por modelos capazes de analisar milhares de operações, identificar padrões e detetar anomalias que dificilmente seriam visíveis a uma equipa humana.

Um porto inteligente aprende, por exemplo, quais as combinações de carga e equipamento que geram mais atrasos, em que condições meteorológicas aumenta o risco operacional, onde surgem bloqueios no acesso rodoviário ou ferroviário e quando um equipamento deve ser intervencionado antes de ocorrer uma avaria.

A manutenção deixa de ser apenas preventiva e passa a ser preditiva. O planeamento deixa de reagir à congestão e começa a antecipá-la. A gestão energética deixa de observar apenas o consumo total e passa a otimizar a utilização de cada equipamento.

Os chamados gémeos digitais poderão aprofundar esta capacidade. Ao criar uma representação virtual do porto, alimentada por dados operacionais, torna-se possível testar cenários, alterações de layout, novos fluxos logísticos ou situações de emergência antes de intervir fisicamente na infraestrutura.

Mas um porto que aprende é também uma organização que mede os resultados das suas escolhas. A inteligência artificial favorece uma gestão baseada em indicadores objetivos: tempo de espera dos navios, produtividade por hora de cais, permanência das mercadorias, fiabilidade ferroviária, tempo de passagem dos camiões, emissões por operação e satisfação dos clientes.

Sem métricas comuns, a transformação digital corre o risco de se converter numa sucessão de projetos tecnológicos sem impacto demonstrável.

Acresce que, para a IA, um porto isolado nunca seria um porto ideal.

Um terminal extremamente eficiente pode perder competitividade se os contentores ficarem retidos nos acessos terrestres. Um navio pode ser operado rapidamente, mas a vantagem desaparece quando não existem comboios, quando a circulação rodoviária é imprevisível ou quando os procedimentos administrativos atrasam a libertação da carga.

O porto deve ser entendido como um nó de uma cadeia logística mais ampla, e não como uma infraestrutura autónoma – é isto que tento sempre transmitir aos meus alunos. Ora, isto exige sistemas digitais interoperáveis, ligações ferroviárias competitivas, acessos rodoviários adequados e plataformas logísticas interiores articuladas com os terminais marítimos. Exige igualmente que a informação acompanhe a mercadoria desde a origem até ao destino.

Desde 1 de janeiro de 2024, os Estados-membros da Organização Marítima Internacional estão obrigados a utilizar uma Maritime Single Window para a troca eletrónica de informações relacionadas com a chegada, permanência e partida dos navios. O objetivo é simplificar procedimentos e evitar a repetição de dados perante diferentes entidades.

O passo seguinte consiste em ligar essa janela marítima aos sistemas das comunidades portuárias, das alfândegas, dos terminais, dos transportadores e das plataformas logísticas. O porto ideal não pede, assim, a mesma informação várias vezes. Recolhe-a uma vez, valida-a e disponibiliza-a, com as devidas permissões, a quem dela necessita.

Durante anos, a eficiência portuária foi frequentemente associada à redução de folgas, à concentração de operações e à maximização da utilização dos ativos. As sucessivas crises logísticas demonstraram, porém, que a eficiência sem resiliência pode tornar os sistemas excessivamente frágeis.

Tensões geopolíticas, alterações de rotas, fenómenos climáticos, ciberataques ou interrupções energéticas podem alterar rapidamente os fluxos marítimos. A UN Trade and Development considera que o transporte marítimo atravessa uma fase marcada simultaneamente por transformações tecnológicas, ambientais e geoeconómicas, exigindo um futuro mais sustentável, resiliente e digital.

A IA pode, sim!, apoiar a construção de cenários, identificar dependências críticas e sugerir respostas alternativas. Pode ajudar a antecipar alterações na procura, redistribuir capacidade e monitorizar riscos em tempo real.

Para Portugal, a oportunidade não está em copiar integralmente Roterdão, Singapura ou Xangai. Está em construir uma rede portuária coerente com a dimensão do país, a estrutura da sua economia e a sua posição atlântica.

No entanto, a utilização crescente de sistemas digitais cria também novas vulnerabilidades. Quanto mais conectado estiver um porto, maior será a importância da cibersegurança, da proteção dos dados e da existência de procedimentos alternativos para manter as operações em caso de falha.

Um porto inteligente não é aquele que depende cegamente da tecnologia. É aquele que consegue continuar a funcionar quando a tecnologia falha.

Por outro lado, a inteligência artificial identificaria igualmente a sustentabilidade como um elemento central do sucesso portuário. Não basta instalar alguns painéis solares ou substituir viaturas administrativas por veículos elétricos. A descarbonização deve estar integrada no desenho das operações e nas decisões de investimento.

Isso inclui eletrificação de equipamentos, fornecimento de energia aos navios a partir de terra, produção e armazenamento de energia renovável, apoio a combustíveis marítimos alternativos e redução dos tempos de espera.

A otimização digital pode ter um papel significativo. Uma escala mais bem planeada evita períodos desnecessários de espera e permite que os navios ajustem a velocidade de navegação, reduzindo consumos. Uma melhor articulação ferroviária pode retirar camiões da estrada. Uma gestão inteligente da energia pode adequar o consumo dos terminais à disponibilidade da rede.

A IA não substitui as grandes decisões de infraestrutura ou de política energética. Ajuda, porém, a utilizar melhor cada euro investido e cada unidade de energia consumida.

Mas, o que significa tudo isto para Portugal?

Portugal parte de uma posição geográfica frequentemente apresentada como excecional. Está próximo das principais rotas atlânticas, possui uma extensa frente marítima e dispõe de portos com características distintas.

Mas a geografia, por si só, não garante carga, investimento ou centralidade logística.

A estratégia Portos 5+, aprovada para o período 2025-2035, estabelece cinco grandes objetivos: investimento e crescimento, descarbonização e sustentabilidade, intermodalidade e conectividade, digitalização e automação, e integração e segurança. Prevê ainda, para 2035, aproximadamente 125 milhões de toneladas de carga, 6,5 milhões de TEU, uma redução de 80% nas emissões de dióxido de carbono e a digitalização integral dos portos.

As metas são ambiciosas. A questão decisiva será, como tenho dito, a sua execução.

A primeira ilação para Portugal é que não basta digitalizar cada porto individualmente. É necessário construir uma verdadeira arquitetura nacional de dados portuários e logísticos. Os sistemas devem comunicar entre si, utilizar padrões comuns e permitir que operadores e clientes acompanhem os fluxos ao longo de toda a cadeia.

A segunda é que Portugal deve evitar confundir sucesso portuário com crescimento indiferenciado. Nem todos os portos precisam de disputar todos os tipos de carga (veja-se, há anos, o que o Prof. Vítor Caldeirinha tem escrito a propósito da coopetition). A inteligência de uma rede está também na especialização, na complementaridade e na coordenação dos investimentos.

A terceira é que a competitividade dos portos portugueses será decidida tanto no interior do território como junto ao mar. Sem ligações ferroviárias fiáveis, capacidade logística interior e conexões competitivas à Península Ibérica e ao restante mercado europeu, o potencial marítimo ficará limitado.

A quarta é que a digitalização deve ser acompanhada por uma transformação da gestão. Será necessário definir indicadores públicos e comparáveis de desempenho, estabelecer responsabilidades e avaliar o impacto dos investimentos. Toneladas movimentadas são importantes, mas não suficientes. Portugal deve medir tempos de escala, produtividade, permanência da carga, fiabilidade das ligações terrestres, emissões e qualidade do serviço.

Finalmente, a quinta ilação é humana. Um porto alimentado por inteligência artificial continuará a precisar de conhecimento operacional, liderança, negociação e capacidade de decisão. A tecnologia alterará funções e exigirá novas competências, mas não eliminará a necessidade de profissionais que compreendam o mar, a logística, os clientes e o território.

Quando se pergunta, então, à inteligência artificial o que é um porto ideal, a resposta acaba por ser menos tecnológica do que poderíamos esperar.

O porto de sucesso é o que conhece os seus fluxos, coordena os seus intervenientes, aprende com os dados, antecipa problemas e serve a economia com previsibilidade. É eficiente sem ser frágil, digital sem excluir, automatizado sem perder conhecimento humano e ambicioso sem desperdiçar recursos.

Para Portugal, a oportunidade não está em copiar integralmente Roterdão, Singapura ou Xangai. Está em construir uma rede portuária coerente com a dimensão do país, a estrutura da sua economia e a sua posição atlântica.

A inteligência artificial pode ajudar a escolher melhores rotas, prever escalas e otimizar terminais. Mas não escolherá por nós o modelo de governação, as prioridades de investimento ou o papel que desejamos desempenhar nas cadeias logísticas internacionais.

O porto ideal não será criado por um algoritmo. Será o resultado de inteligência coletiva – e da capacidade de transformar estratégia em execução.

* Compliance Officer da APL – Administração do Porto de Lisboa, S.A. Artigo publicado no site Transportes & Negócios.

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