
Desde 10 de junho, Portugal atravessou sucessivas ondas de calor e a Direção-Geral da Saúde contabilizou cerca de 123 óbitos em excesso até 6 de julho. Em paralelo, o incêndio de Vouzela tornou-se o maior da Europa este ano e o país acumula a pior área ardida desde 2017. A resposta pública organizou-se, como é habitual, em torno da proteção civil, dos avisos meteorológicos e dos espaços climatizados. É a resposta adequada para os dias de pico, mas cobre só parte do problema.
Por Gustavo Simões Cordeiro *
O excesso de mortalidade associado ao calor não se explica, na maioria dos casos, por golpes de calor. Concentra-se em pessoas idosas com doença cardiovascular e respiratória, para quem uma sequência de dias acima dos 30 °C funciona como o empurrão final sobre uma vulnerabilidade construída ao longo de meses: hipertensão mal controlada, insuficiência cardíaca descompensada, DPOC, medicação diurética que ninguém ajustou. Isto desloca parte da questão da emergência para os cuidados de saúde primários — e levanta uma pergunta que raramente se faz: até que ponto a organização da proximidade determina quantas pessoas morrem numa vaga de calor?
Num working paper com Mylène Lagarde (LSE), Paula Pereda (USP), Christopher Millett (Imperial College e Nova SBE) e Judite Gonçalves (Imperial College e Nova SBE), procurámos responder com dados brasileiros. Cruzámos a expansão faseada da Estratégia Saúde da Família nos 5570 municípios do país, entre 2000 e 2019, com temperaturas diárias e 20,8 milhões de óbitos de adultos. Nas regiões Sul e Sudeste, onde o calor anómalo pesa mais na mortalidade, o aumento da cobertura atenuou substancialmente as mortes por calor. Entre os maiores de 70 anos do Sudeste, a mortalidade em excesso prevista em dias muito quentes (>30 °C) caía de 10,6 para 5,4 óbitos por 100 mil habitantes quando a cobertura passava de 0% para 90%. O efeito é conduzido por causas circulatórias e respiratórias, as que a gestão continuada da doença crónica consegue influenciar. Com 90% de cobertura em todo o período, teriam sido evitados mais cerca de 37 mil óbitos entre os maiores de 50 anos do Sudeste, além dos 32 mil que a expansão observada já evitou.
O mecanismo é menos glamoroso do que qualquer tecnologia de adaptação climática: equipas com população geograficamente atribuída, agentes comunitários que visitam as casas com regularidade, medicação verificada, sintomas identificados antes de haver crise. Não é resposta ao evento; é a erosão da vulnerabilidade que o evento explora.
Portugal não tem a figura do agente comunitário de saúde. Mas vale a pena notar que, no Brasil, ela nasceu de uma limitação (poucos médicos, acesso difícil) e acabou por gerar uma capacidade que aqui escasseia: presença regular no domicílio, fora do consultório. Os nossos cuidados primários continuam muito dependentes do médico de família, num momento em que 1,67 milhões de utentes não tinham médico atribuído em maio. Delegar tarefas rotineiras e protocoláveis — aferir a tensão, confirmar a adesão à medicação, sinalizar quem vive só e sem forma de arrefecer a casa — não retira nada à medicina geral e familiar: liberta-a. E há base sobre a qual construir: as unidades de cuidados na comunidade e as equipas de cuidados continuados integrados já fazem parte deste trabalho, com cobertura desigual e sem articulação explícita com o risco climático.
A transposição não é automática. O Brasil parte de outro nível de vulnerabilidade, com outro parque habitacional e outra estrutura etária, e os resultados não são promessa de replicação. São uma hipótese razoável e testável. Como investigador, o que gostaria de ver é modesto: um programa de proximidade desenhado com faseamento explícito — algumas unidades locais de saúde primeiro, outras depois — de forma a poder ser avaliado causalmente, e não por impressão. Os verões que aí vêm não serão exceção, e talvez a adaptação mais barata de que dispomos já esteja dentro dos centros de saúde, à espera de ser organizada.
* Nova SBE, Health Economics & Management Knowledge Center. Artigo publicado no site Healthews.pt.
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