Não faz sentido pensar-se que atual bitola é a morte da Linha do Vouga

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Linha do Vouga, S. João da Madeira (foto de António Pereira).
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O antigo autarca de São João da Madeira, recorrendo agora a um artigo de opinião no jornal “O Regional”, veio, uma vez mais, atacar os planos do governo para a Linha do Vouga, que passam pela manutenção da bitola métrica.

Por Movimento Cívico pela Linha do Vouga *

Muitos de vós estarão a questionar o porquê de dar-mos tanta importância às palavras de alguém como Castro Almeida, que não tem qualquer poder governativo, mas não nos esqueçamos que se trata de uma figura política de grande relevância, quer a nível regional, quer a nível nacional e, como tal, dotada de enormes recursos para ludibriar a opinião pública. Ressalvando não se tratar de qualquer tipo de ataque pessoal, enquanto defensores da Linha do Vouga e acérrimos defensores da sua manutenção em bitola métrica, compete a este Movimento Cívico sair em defesa dos seus ideais, sobretudo quando sente que estes estão a ser injustamente atacados.

No artigo, Castro Almeida começa por dizer que “hoje ninguém usa o comboio para se deslocar de S. João da Madeira ao Porto”. Tal afirmação é contrariada por dados do próprio Plano Ferroviário Nacional, que nos diz que a Linha do Vouga terá transportado, em ano de pandemia, mais de 600 mil passageiros. Ora, é expectável que muitos destes se tenham deslocado até ao Porto, mesmo a linha terminando em Espinho-Vouga e, desse modo, não existindo um cómodo interface. A bitola claramente não é um problema. O problema reside atualmente no facto de não existir esse cómodo transbordo, mas tal entrave tem já solução à vista, pois perspectiva-se o prolongamento da linha novamente até à estação de Espinho, o que permitirá um transbordo num tempo residual. No entanto, não podemos deixar de dizer que é bastante redutor pensar que a linha só serve para levar pessoas de São João da Madeira, ou Oliveira de Azeméis, para o Porto. É importante que a linha também sirva para atrair pessoas do centro para a periferia e a Linha do Vouga, pelo facto de ter uma compleição única no país, terá a obrigação de o fazer.

Se em entrevista ao Porto Canal, Castro Almeida não foi meigo nos seus comentários, neste artigo conseguiu ser ainda pior ao atacar o turismo ferroviário, nomeadamente o Comboio Histórico, afirmando que “o dinamismo da zona de Oliveira de Azeméis, S. João da Madeira e Santa Maria da Feira não é compatível com visões de museologia ferroviária que acabam por condenar esta região ao isolamento ferroviário em troca de um vago saudosismo associado à memória do comboio a vapor.” Aproveitamos, portanto, para esclarecer Castro Almeida de que o “vago saudosismo” de que fala, está a ser um enorme sucesso entre Aveiro e Águeda, o que evidentemente trás um enorme acréscimo à economia local. Segundo notícias recentes, as últimas edições do Comboio Histórico do Vouga registaram um enorme sucesso, com níveis de procura que, praticamente, esgotaram a capacidade de lugares oferecida, tendo já viajado mais de 3900 clientes.

Mas Castro Almeida, não se contentando com tal argumento, foi ainda mais longe pois, na sua opinião, “não pode aceitar-se que a Linha do Vouga seja remetida para o grupo das linhas com potencial de turismo ferroviário, a par com a linha do Douro, do Corgo ou da Beira Baixa.” Ora, se não podemos aceitar que a nossa linha seja remetida para o lote das mais bonitas e com maior potencial de exploração turística do país, então não sabemos o que podemos aceitar! Castro Almeida talvez já se tenha esquecido de quem encerrou parte da linha até Viseu, mas nós não! Temos de aceitar, sim, que o que resta da Linha do Vouga, entre Espinho e Aveiro, é um tesouro único no país que tem de ser preservado e o turismo ferroviário é um dos meios de aproveitar esse potencial. A linha tem de ser modernizada, mas a mudança de bitola simplesmente aniquilaria esse potencial. Será que os oliveirenses, sanjoanenses e feirenses querem mesmo que uma linha única e das mais bonitas do país deixe de passar perto de suas casas? Acreditamos que não!

O ex-autarca sanjoanense revela ainda o seu débil conhecimento ferroviário e desfazado da realidade ao afirmar que “é agora o tempo de aproveitar o canal ferroviário existente, introduzir algumas alterações que permitam aumentar a sua velocidade, eletrificar a linha e introduzir a bitola ibérica”, acrescentando ainda que “será um pequeno custo, comparado com o investimento do tempo do Rei D. Carlos, que D, Manuel II veio inaugurar em dezembro de 1908.”

Caro Castro Almeida, não! Não será um pequeno custo, não bastará algumas correcções nem tão pouco poder-se-á aproveitar o atual canal ferroviário. Comparativamente com a bitola ibérica, a bitola métrica permite raios de curvatura mais pequenos e esse fator permite que a linha serpenteie por entre casas e quintais. Ora, aplicar a bitola ibérica no atual canal seria praticamente impossível e só com bastantes expropriações e construções de dificuldade técnica elevada, de custos faraónicos, seria possível obter a área necessária para a sua aplicação. Considerando estas condicionantes, talvez ficasse mais barato construir uma linha de raiz noutro local. Mas as contas já aqui as apresentamos e são bastante simples: mudar a bitola, apenas nos 33 quilómetros entre Oliveira de Azeméis e Espinho, teria um custo mínimo de 75 milhões de euros, ao passo que mantendo a atual bitola, será possível modernizar os 96 quilómetros, entre Espinho e Aveiro, com 100 milhões de euros. Isto significa que mudar a bitola é 190% mais caro do que modernizar a linha mantendo a atual… Castro Almeida acha que não…

Para finalizar, Castro Almeida diz ainda que “se a manutenção da bitola métrica da Linha do Vouga ficar consagrada no plano ferroviário nacional, toda esta região ficará desprovida de ligações ferroviárias porque tal significaria a continuação da morte lenta desta linha.” Aqui, gostaríamos de aproveitar para referir o exemplo da Linha de Guimarães, que fora em tempos, tal como a Linha do Vouga, uma linha de bitola métrica e cuja modernização com alteração para bitola ibérica traduziu-se em benefícios muito baixos, sobretudo no que diz respeito a ganhos nos tempos de viagem, já que ali fora possível aproveitar grande parte do canal original. Atualmente, a velocidade máxima nesta linha rondará os 80km/h e isso é perfeitamente alcançável em bitola métrica. No caso da Linha do Vouga, estamos cientes que não será uma missão fácil de alcançar, mas com correção de traçado nos locais onde for possível, a velocidade máxima praticada poderá atingir valores próximos dos da Linha de Guimarães.

Como tal, na nossa opinião, não faz qualquer sentido pensar-se que a manutenção da atual bitola provocará a sua morte. Aliás, estamos perfeitamente convencidos de que terá o efeito contrário, pois dadas as características que a destingue das demais, será sempre uma linha atrativa. Castro Almeida apenas tem de perceber que a Área Metropolitana do Porto não é detentora da Linha do Vouga, nem esta se encerra neste espaço. A Linha do Vouga liga Espinho a Aveiro, passando por Santa Maria da Feira, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Albergaria-a-Velha e Águeda. A linha e o comboio que nela circula pertence, sim, a todo um distrito, o de Aveiro, e a todo um povo que, com todo o orgulho e carinho, como se de um familiar se trata-se, o chama de “Vouguinha”.

* https://www.facebook.com/Pelalinhadovouga/

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