Mais um ano de comboio histórico. E agora?

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Foto cedida pelo Movimento Cívico pela Linha do Vouga.
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É importante que este produto continue apetecível, quer para quem já dele usufruiu, quer para quem pensa ainda dele poder vir a usufruir. Estará a CP à altura do desafio, numa altura que poderá enfrentar concorrência?

Bruno Soares *

Resolvi começar esta nova crónica com o final da crónica anterior: a alusão ao comboio histórico e a duplicação da oferta que se verificou este ano. O presente mês dita o fim de mais uma campanha que presumo ter sido, uma vez mais, de grande sucesso! E agora? O que se segue? Estas questões levantam-se num momento crucial para a ferrovia portuguesa, cujo mercado irá, brevemente, passar pelo processo de liberalização, ao abrigo das normativas europeias.

É importante referir que o Comboio Histórico do Vouga esteve em vias de não se concretizar, devido a uma grave avaria da locomotiva Alsthom 9004 e à falta de pessoal na EMEF (Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário). Só o esforço conjunto entre esta empresa e a CP (Comboios de Portugal) permitiu que a composição turística fosse reparada e, por consequência, regressasse aos carris este ano. Esforço esse que, mais uma vez, terá sido recompensado com belas taxas de adesão.

Para mim, enquanto membro ativo do Movimento Cívico pela Linha do Vouga (MCLV), esse facto não poderia deixar de ser motivo de regozijo mas, também, de preocupação. É importante que este produto continue apetecível, quer para quem já dele usufruiu, quer para quem pensa ainda dele poder vir a usufruir. Estará a CP à altura do desafio, numa altura que poderá enfrentar concorrência?

O próximo ano poderá ser decisivo para que se obtenha uma resposta, no entanto a operadora pode estar de “mãos atadas”, não só pelos problemas que se continuam a verificar na EMEF, mas também por aquilo que considero “erros graves”, cometidos ao longos das últimas duas décadas pela Refer (actual IP – Infraestruturas de Portugal), seja pelas intervenções que realizou, seja pela falta delas, na Linha do Vouga.

Do meu ponto de vista, seria importante alargar a oferta turística no Vouga, quer pela adição de novas composições históricas, quer pela adição de quilómetros, isto é, este produto devia estender-se ao restante troço da linha, compreendido entre Sernada do Vouga e Espinho.

No entanto, é demasiado óbvio que a não concordância com a Linha do Norte, em Espinho, e a degradação do troço Sernada do Vouga – Oliveira de Azeméis sejam um verdadeiro empecilho, para que a oferta turística percorra a totalidade dos cerca de cem quilómetros de linha ainda existente. A atual oferta já vai no seu segundo ano e estava previsto que a locomotiva a vapor CP E214 passasse a traccionar as viagens.

Segundo a comunicação social, a mesma está operacional, no entanto, continua resguardada nas oficinas de Contumil. Coincidência, ou não, para este facto, um entusiasta inglês alertou o MCLV, nas redes sociais, de que a dita locomotiva não poderia traccionar em marcha à ré e, como tal, a única solução para que o vapor regressasse à Linha do Vouga passaria mesmo pela necessidade da existência de rotundas (inversores de marcha giratórios) nos pontos terminais do percurso do comboio histórico.

Ora, com a modernização da estação de Aveiro, todas as infraestruturas, naquele espaço, associadas à tracção a vapor, foram eliminadas. De igual modo, com a destruição do layout original do parque de Sernada do Vouga, a ligação à rotunda ali existente foi eliminada.

O mesmo se verifica em Oliveira de Azeméis. Também em Espinho já não existem quaisquer vestígios das infraestruturas associadas ao vapor. De sublinhar que, bem recentemente, aquando das obras de beneficiação do troço Águeda – Sernada do Vouga, cometer-se-ia os mesmos erros do passado, com a aniquilação da ligação da rede ferroviária ao interior dos resguardos do Núcleo Museológico de Macinhata do Vouga.

Sendo, para já, o regresso do vapor à Linha do Vouga uma presumível miragem, seria importante alargar horizontes e procurar soluções igualmente interessantes e menos dispendiosas num curto prazo.

Nos resguardos de Sernada do Vouga, encontra-se uma automotora Allan 9300 restaurada e, possivelmente, muito próxima de estar operacional. Existe, também, um reboque da mesma construtora a aguardar pelo restauro. Se ambas as composições fossem recuperadas de modo a estarem operacionais, a CP poderia muito bem apresentar, quiçá, já no próximo ano um novo produto turístico de via estreita. Este comboio poderia ser apresentado dentro daquilo que já é feito pelo Comboio Miradouro, na Linha do Douro, ou seja, no período de maior afluência turística, uma composição Allan circularia todos os dias ao preço dum comboio interregional. E o melhor é que não teria de estar limitado, exclusivamente, ao troço Aveiro – Macinhata do Vouga…

Não tenho a menor dúvida de que faria as delicias de pequenos e graúdos, para gaudio dos demais entusiastas. Numa altura em que só se pensa em bitola larga e na “Ferrovia 2020”, é importante pensar, também, que a ferrovia do século XX, apesar de todos os seus prós e contras, tem um elevado valor turístico que jamais deve ser descurado…

* Movimento Cívico pela Linha do Vouga.