
A notícia de que Portugal se encontra entre os países com piores níveis de literacia, conforme o mais recente relatório da OCDE, não pode deixar de nos preocupar profundamente. Não se trata apenas de um problema de educação, mas de um desafio multifacetado com implicações diretas e severas na saúde e bem-estar da nossa população. A saúde é um espelho das condições sociais, económicas e ambientais em que vivemos, e a literacia é, inegavelmente, um dos seus determinantes mais cruciais.
Por Mário André Macedo *
Os dados são claros e devastadores. Quase metade dos portugueses adultos apresenta muita dificuldade em interpretar textos, tendo apenas capacidade para compreender versões curtas. Este cenário volta a lembrar-nos da falta de visão e compreensão da realidade do terreno aquando do planeamento das políticas de saúde. As lacunas no campo da literacia são estruturais e de longa data, mas normalmente encontram-se ausentes no lançamento das políticas públicas.
A literacia em saúde, em particular, é um pilar fundamental para a autonomia e o acesso efetivo aos cuidados. É um determinante que compromete não só a adesão aos cuidados, a capacidade para entender diagnóstico ou a adoção de estilos de vida saudáveis, sem esquecer que neste capítulo, os determinantes sociais e comerciais da saúde também interagem, como a própria capacidade de procurar e navegar no ecossistema de saúde. Sem literacia, não há cuidados de saúde de qualidade, nem uma verdadeira defesa do bem-estar coletivo! Isto traduz-se no idoso que não compreende a posologia dos seus medicamentos, nos pais que hesitam perante os momentos de vacinação ou no doente crónico incapaz de gerir a sua própria condição.
As desigualdades reproduzem-se de forma perversa. Crianças nascidas em famílias de baixa literacia são duplamente prejudicadas. Têm acesso reduzido a cuidados de saúde e piores resultados em saúde durante a infância e adolescência. Quando crescem, tendem a ser adultos com baixa literacia, perpetuando assim um círculo vicioso de desigualdades e maus resultados em saúde. É imperativo trabalhar para corrigir esta injustiça. Não podemos continuar a aceitar que grande parte das nossas crianças cresçam sem a liberdade para atingir todas as suas capacidades.
É neste contexto de baixa literacia que a desinformação, a pseudociência e a pós-verdade encontram terreno fértil para florescer, com consequências devastadoras para a saúde pública. A dificuldade em avaliar criticamente a informação recebida, especialmente em plataformas digitais, tornam a população suscetível a narrativas falsas sobre vacinas, tratamentos milagrosos ou conspirações descabidas. Este vazio de conhecimento é avidamente explorado, seja por interesses comerciais ou por atores políticos que, sem escrúpulos, cavalgam e alimentam a onda da desinformação para ganhos próprios. A onda censória e as posições negacionistas sobre ciência e saúde, especialmente quando vindas de figuras públicas e com responsabilidade, representam um sério risco para o conhecimento científico e para a confiança nas instituições de saúde.
A pseudociência e a pós-verdade, disfarçadas de conhecimento alternativo e “verdadeiro” onde as emoções e as crenças pessoais se sobrepõem aos factos objetivos, exploram as fragilidades da literacia em saúde, prometendo soluções fáceis para problemas complexos. Quando a confiança na ciência e nos profissionais de saúde é abalada por estas narrativas, a adesão a medidas preventivas e a tratamentos eficazes diminui, resultando em piores desfechos para os indivíduos e para a comunidade. A saúde de todos é prejudicada pela influência nociva da desinformação.
A literacia tem de ser assumida como uma prioridade estratégica e transversal da saúde. É preciso desenhar programas concretos, financiados e avaliados, que integrem os centros de saúde, as escolas e os locais de trabalho, com metas claras para todas as faixas etárias. Investir na literacia não é apenas uma política de educação; é o mais fundamental dos cuidados de saúde. É a vacina mais eficaz contra a desigualdade e a desinformação. Está na hora de a administrar!
* Enfermeiro Especialista em Saúde Infantil e Pediátrica Artigo publicado originalmente no site Healthnews.pt.
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