Jackpot

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Vigilância de supermercados (Arquivo).
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Depois de muito pensar, concluiu que só lhe restava uma saída, o gamanço, actividade que, mau grado a crise que assolava o país, continuava a permitir que os seus praticantes se desenrascassem, podendo mesmo gerar rendimentos elevadíssimos, quando praticada por profissionais altamente qualificados.

Por Diamantino Dias *

Felícia Fradoca, chegada aos setenta anos, fez uma análise da sua situação e constatou o que já sabia há muito:
– situação familiar: sem nenhum parente;
– saúde: artroses nos joelhos, hérnia discal e tensão alta;
– habitação: quarto alugado por 60 € mensais;
– rendimentos: pensão de velhice e invalidez, de 275,30 €;
– conclusão: não podia trabalhar e tinha 215,30 € por mês, para comer, vestir-se e comprar os medicamentos imprescindíveis para o coração.

Decidiu que teria de arranjar maneira de ganhar mais algum dinheiro, se queria continuar a sobreviver. Começou por tentar a mendicidade, mas cedo verificou que a vida não lhe seria fácil, naquele sector, porque, no bairro onde morava, toda a gente era pobre e, na grande cidade, os melhores lugares estavam ocupados pelas máfias da Europa Central e de Leste, cujas carrinhas chegavam, de manhã, para distribuir as mulheres e as crianças pelos respectivos locais de trabalho e voltavam, à noitinha, para as levar para os acampamentos e bairros de lata da periferia. Durante o dia, os homens iam recolhendo os rendimentos e fiscalizando se havia concorrência feita por outros pedintes que, a verificar-se, levava à expulsão dos intrusos por métodos nem sempre pacíficos.

Tentou, a seguir, os contentores do lixo e teve nova decepção. Por um lado, a crise reflectia-se, até, nos conteúdos dos recipientes – plásticos, papéis e pouco mais; por outro lado, as já referidas máfias controlavam também o ramo, açambarcando a recolha não só de cartão, nas zonas comerciais, mas também de electro-domésticos e roupas, nos bairros de gente mais abastada. Desistiu, quando foi parar ao hospital com uma intoxicação alimentar provocada por uma embalagem de almôndegas, fora de prazo, encontrada num contentor de uma zona de restauração.

Depois de muito pensar, concluiu que só lhe restava uma saída, o gamanço, actividade que, mau grado a crise que assolava o país, continuava a permitir que os seus praticantes se desenrascassem, podendo mesmo gerar rendimentos elevadíssimos, quando praticada por profissionais altamente qualificados. Tomada a decisão, reflectiu sobre a especialidade a que se deveria dedicar, a qual teria de ser compatível com as suas actuais capacidades. Ser carteirista exigia uma perícia manual que só se obtinha ao fim de muitos anos de prática. O roubo de esticão a pé só era possível para pessoas com aptidões para velocistas, dado que pressupunha uma boa capacidade de arranque e manutenção de “sprints”, por vezes prolongados. Assaltos a residências ou a estabelecimentos requeriam capacidades físicas que ela não possuía.

Durante estas elucubrações, foi levar o lixo ao contentor e, olhando para o saco com a publicidade de uma conhecida empresa de distribuição, a solução para o seu problema surgiu-lhe de repente: roubar nos centros comerciais. A ideia agradou-lhe, já que ela possuía todos os atributos para a levar à prática com êxito. Trabalhara numa firma de limpezas que tinha contrato com algumas das empresas mais importantes do sector, pelo que conhecia bem os futuros locais de actuação, como funcionava a sua segurança e, até, quais os produtos normalmente com alarme. A sua figura era discreta, não chamando a atenção. Finalmente, possuía presença de espírito e não tinha medo de correr riscos, dado que o pior que lhe poderia vir a acontecer seria ir para a prisão, onde teria, pelo menos, cama e mesa gratuitas.

Tomada a decisão, passou à fase de preparar o equipamento necessário para esconder e transportar o material roubado. Coseu quatro grandes bolsas, no interior da parte da frente duma saia comprida rodada e com duas rachas que permitissem o acesso fácil às referidas bolsas. Pôs dois elásticos fortes a fechar as mangas de um velho “kispo” e descoseu-lhe os bolsos exteriores, de maneira a que passassem a constituir entradas directas para os recipientes da saia. Completou o uniforme profissional com umas velhas botas de cano alto, que lhe tinham sido oferecidas por uma patroa muito gorda e que seriam um óptimo sítio para colocar pequenos objectos, já que as suas pernas eram do tipo Olívia Palito.

Iniciada a actividade, cedo se tornou uma especialista, procurando correr o mínimo de riscos e evitando tornar-se conhecida, pelo que espaçava, ao máximo, as visitas ao mesmo local, o que não lhe era difícil, dado o grande número de híperes, súperes e grandes lojas existentes.

Um dia, teve conhecimento que o maior centro comercial iria comemorar o 22.º aniversário da sua inauguração e resolveu estar presente, porque haveria promoções, muita gente, confusão, logo, boas oportunidades para uma rentável jornada de trabalho.

Chegou a meio da tarde, pegou num pequeno cesto, dirigiu-se à padaria e apanhou um saco com dois pães, dado saber que andar pelos corredores sem nada na mão poderia provocar suspeitas aos seguranças. Em seguida, deu a habitual volta completa de prospecção, terminada a qual, pensou na merenda, dirigindo-se à secção de queijos, onde estavam duas marcas a oferecer provas e comeu quatro tapas. Depois, passou pelo sector dos avulsos, servindo-se de alguns frutos secos e metendo, nas bolsas, uma mão cheia de gomas e pequenas embalagens de bolachas. Terminou na frutaria, provando, repetidamente, uvas, morangos e cerejas.

Satisfeito o apetite, começou a colheita. Primeiro, os produtos para consumo próprio, principalmente bens alimentares: duas maçãs, duas peras, uma banana, dois iogurtes, um pacote de manteiga, uma lata de conserva de sardinha e outra de atum e três embalagens de produtos fatiados (queijo, peito de frango e fiambre), pondo, no cesto, uma de chouriço de sangue. Em seguida, ocupou-se com o material que, mais tarde, venderia: duas tabletes de chocolate, uma embalagem de bolachas baunilha, um conjunto de pilhas, um tubo e uma caixa de creme facial, um “baton” para os lábios e um tubo de rímel.

Entretanto, ouviu o anúncio de que iria ser distribuído o bolo de aniversário e aproveitou para comer uma fatiazinha, após o que decidiu encerrar o dia de trabalho. Dirigiu-se às caixas e, pelo caminho, lembrou-se de que necessitava de um pente, tendo feito um pequeno desvio. Quando pegou no pente, reparou, pelo canto do olho, que um segurança olhava para ela, pelo que colocou ostensivamente o objecto, no cesto, e continuou o seu destino, mas dando mais uma pequena volta para ver se era seguida, o que não aconteceu.

Chegada à caixa, esperou pela sua vez, entregou os pães, o chouriço e o pente. A caixeira começou a passar a pistola pelos códigos de barras e, quando chegou ao pente, soou uma campainha e a menina disse-lhe:
– Mas que grande azar que a senhora teve!
– Mas o que é que eu fiz? O que é que está a acontecer?
– Não fez nada, mas, neste dia de aniversário, oferecemos, de 500 em 500 movimentos de caixa, a totalidade da venda e a cliente só tem uma factura de 5,18 €.

Entretanto, tinha chegado uma funcionária com a farda da loja que se identificou como sendo a chefe das caixas e disse:
– Mesmo assim, a senhora está de parabéns, porque a sua compra foi a número 1.999 de hoje e nós temos, em colaboração com a agência de viagens do nosso Grupo “VER E CONHECER”, um prémio especial para a venda que coincidisse com o ano em que nos instalámos nesta cidade, ou seja, o ano 1.999. Assim, acaba de ganhar o nosso grande “Jackpot”: uma estadia de uma semana no Caribe, num hotel de 5 estrelas, em regime de meia-pensão, prémio este que, todavia, não pode ser negociado, tendo de ser gozado pelo vencedor. Mais uma vez, os nossos sinceros parabéns e esperamos que continue a ser nossa cliente.”

Moral da estória: férias no Caribe não são para ladra de supermercado.

* Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, Estudos Portugueses e Franceses, Técnico Superior Assessor Principal da Câmara de Aveiro – reformado (página do autor em Aveiro e Cultura).

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