Hospital de Estarreja.

Os internamentos sociais continuam a ser um dos problemas persistentes do Serviço Nacional de Saúde e os dados mais recentes confirmam que a situação está a piorar. Em março de 2026, havia 2807 doentes internados sem necessidade clínica, ocupando 13,9% das camas hospitalares e criando um custo anual superior a 350 milhões de euros. Mais preocupante do que os próprios números, é a tendência de crescimento que se tem vindo a acentuar.

Por Diogo Fernandes Sousa *

Tal como já era evidente há três anos, quando abordei o tema pela primeira vez, o hospital não é a resposta adequada para estes casos. A permanência de utentes após alta clínica representa uma utilização desajustada de recursos e contribui para a sobrecarga dos serviços, dificultando o acesso de quem necessita de cuidados hospitalares.

Nos últimos anos, foram ensaiadas algumas soluções, nomeadamente o recurso a lares residenciais privados, com comparticipação do estado. A medida parecia fazer sentido pois iria libertar camas hospitalares transferindo estes utentes para respostas mais adequadas, no entanto, os resultados mostram que esta estratégia, por si só, ficou aquém do necessário.

Desde logo, mantém-se um problema de base assente na escassez de vagas, quer na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, quer nas estruturas residenciais para idosos. A isto junta-se a fragilidade do apoio domiciliário e, em muitos casos, a ausência de retaguarda familiar. Perante este cenário, o hospital continua a funcionar como solução de último recurso.

Por outro lado, persistem incoerências nas políticas adotadas. Num contexto em que é necessário aumentar rapidamente a oferta, faria mais sentido garantir condições semelhantes para todos os operadores, públicos, do setor social ou privados, incentivando uma resposta mais alargada.

Acresce ainda um aspeto, que se torna evidente, de que este não é um problema temporário. A insistência em soluções transitórias contrasta com a natureza estrutural do tema. Enquanto não houver um investimento consistente e articulado nas respostas sociais e nos cuidados continuados, o ciclo repetir-se-á, com custos e impacto no funcionamento do Serviço Nacional de Saúde.

Concluindo, o recurso a lares privados continua a ser uma parte da solução, mas está longe de ser suficiente porque o problema dos internamentos sociais não se resolve com medidas pontuais. Exige continuidade, coordenação e uma visão mais ampla sobre o papel de cada resposta no sistema, caso contrário, os hospitais continuarão a suportar um peso que não lhes compete.

* Escritor do Livro “Rumo da Nação: Reflexões sobre a Portugalidade”.

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