(H)À Educação: Podemos derrubar preconceitos históricos e desinformação?

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Universidade de Aveiro.
Comercio 780

Para se reconhecer e atender a diversidade, é necessário a inovação pedagógica; esta, inclui valorizar as experiências e perspetivas de TODAS as pessoas, respeitar as suas formas de aprendizagem e proporcionar-lhes oportunidades de otimizarem o seu potencial.

Por Marisa Maia Machado e Paula Santos *

Desde 2009 que o Dia Mundial da Justiça Social é celebrado anualmente no dia 20 de fevereiro para a sensibilização das situações de pobreza, desemprego e exclusão.

Eu queria ir para a Universidade “para aprender e fazer novos amigos” diz a Patrícia; para “ter aulas e ser autónoma” conta a Joana; para “aprender coisas novas” refere a Carolina. Estas jovens eram (e ainda continuam a ser) excluídas do Ensino Superior português, por não serem titulares de habilitação de acesso e ingresso, nos termos aplicáveis ao regime geral de acesso ou para outras vias especiais de ingresso. No entanto, após a conclusão da escolaridade obrigatória, tal como acontece com os seus colegas, também desejam continuar a sua formação académica.

Na verdade, a sociedade ainda continua a subestimar o que estas pesssoas podem alcançar e desconhecem como é que podem ser incluídas com sucesso. Por isso é que “em pleno século XXI custa acreditar que a nossa sociedade não está preparada (ou não quer estar) para receber e incluir jovens adultos com Dificuldades Intelectuais e Desenvolvimentais” afirma Inês Gomes, estudante da Universidade de Aveiro (UA).

Importa ter presente que Portugal assinou e ratificou, em 2009, a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, em que o artigo 24º, ponto 5, declara que “as pessoas com deficiência podem aceder ao ensino superior… sem discriminação…. Para este efeito, os Estados Partes asseguram as adaptações razoáveis para as pessoas com deficiência”.

Assim, uma equipa de investigação, com a intenção de intervir para a justiça social, porque a Educação é um direito, e um ES inclusivo é um imperativo ético, fez emergir o estudo-piloto inclUA, visando gerar condições para compreender o processo de inclusão desta população na universidade e as transformações que é necessário operar para que se torne uma opção viável. Por isso, as jovens acima mencionadas, segundo os objetivos dos seus projetos de vida, escolheram algumas “disciplinas” da regular oferta educativa da UA, em que vieram a participar, sob consentimento prévio dos docentes, no 2º semestre do ano letivo 2018-2019.

Enquadrado neste projeto mais abrangente, decorre o “inclUA investiga”, que visa fomentar e sensibilizar para “um mundo mais justo e inclusivo”, como diz a Inês. Esta investigação, co-dinamizada por alunas da UA – Cátia Simões, Cátia Almeida, Inês Gomes, Telma Chipelo e participantes do inclUA – Carolina Martinho, Joana Santos e Patrícia Santos, “pretende provar que a educação pode ser a solução para eliminar alguns obstáculos, e alcançar a inclusão”, afirma Inês.

Uma das primeiras universidades a abrir as suas oportunidades de aprendizagem a esta população foi a Universidade de Alberta, em 1987. Face a esta data, atónitas, questionámos: “Será que, há 32 anos, a inclusão deste estudantes no Ensino Básico e Secundário já era plena e efetiva?”.

Pesquisámos, buscando respostas, e constátamos que ainda não o era. Contudo, decidiram que o Ensino Superior não poderia continuar a esperar e a excluir jovens que têm muita motivação e interesse em estudar.

Além disso, considerando que o Ensino Superior forma os futuros professores, por que não começar a ‘dar o exemplo’, precisamente neste nível de ensino?

Nesta universidade, tal como noutras internacionais, estes estudantes têm uma via de acesso própria e frequentam um curso não conferente de grau que consiste num programa constituído por “disciplinas” de alguns cursos selecionados pelos estudantes.

Claro que, para se reconhecer e atender a diversidade, é necessário a inovação pedagógica; esta, inclui valorizar as experiências e perspetivas de TODAS as pessoas, respeitar as suas formas de aprendizagem e proporcionar-lhes oportunidades de otimizarem o seu potencial.

Para além das evidências resultantes dos estudos internacionais sobre os múltiplos benefícios da inclusão desta população na Universidade, como maior empregabilidade e participação social, importa enfatizar que não são as diferentes capacidades, mas antes as atitudes das pessoas que impõem barreiras impossibilitando a participação destas pessoas. Com base num conjunto coordenado de práticas colaborativas, apoios e metodologias apropriadas, estamos perante um desafio – tornar a comunidade mais inclusiva – onde as barreiras criadas por preconceitos históricos quanto à aprendizagem de pessoas com dificuldades intelectuais e desenvolvimentais possam ser efetivamente desmoronadas e se tenha em consideração a individualidade e a valorização da diversidade humana.

Marisa Maia Machado e Paula Santos, investigadoras da UA.

* Investigadoras do Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro. Artigo publicado originalmente no site UA.

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