Arouca (incêndios florestais, 2025).

Sou bombeiro na corporação de Arouca há mais de 30 anos. Ao longo deste tempo, vi e combati muitos incêndios, muitas dificuldades, muitos momentos duros… mas poucos me marcaram como este.

Por Pedro Bastos *

Pela primeira vez, por motivo de lesão, vi-me impedido de estar no terreno, lado a lado com os meus colegas, a combater um incêndio que nos feriu a todos, não só pela força destruidora das chamas, mas também pelo impacto que teve nas nossas gentes, nas nossas serras e na nossa comunidade.
Mesmo limitado fisicamente, não consegui ficar em casa. Passei dias e noites no quartel, a acompanhar, a apoiar, a tentar dar ânimo aos meus colegas, verdadeiros heróis que combateram sem descanso, com coragem e determinação.

Mas não foram só eles. Quero destacar, com toda a força e respeito, as populações locais que, muitas vezes antes mesmo de nós conseguirmos chegar, já estavam no terreno a tentar salvar o que era seu e o que era de todos. Gente de mãos “queimadas” pelo trabalho e corações valentes, que enfrentaram o fogo com tudo o que tinham. São, também eles, heróis.

Ao lado deles, a Direção da Associação, os funcionários do quartel e os voluntários que asseguraram todo o suporte necessário para que os operacionais pudessem continuar a missão.

Um enorme agradecimento às corporações de bombeiros de todo o país que acorreram em apoio a Arouca, à GNR, Proteção Civil, escuteiros, autarcas locais e a todos os que ajudaram com mantimentos, água, refeições e palavras de alento.

Uma palavra muito especial para o Restaurante Alto da Estrada, que foi incansável, dia e noite, na preparação de refeições quentes para os muitos operacionais no teatro de operações. Um gesto simples, mas de um valor imenso, que jamais será esquecido.

Este foi um combate difícil, com condições climatéricas extremas. O balanço geral é positivo, fruto da dedicação de todos, mas não podemos ignorar o que correu menos bem, não como crítica destrutiva, mas como apelo à responsabilidade.

Há muitos anos que quem vive e trabalha no terreno tem vindo a alertar para estas situações. Alertas esses que, se tivessem sido ouvidos, analisados e transformados em ação, tanto pelo poder local como pelo poder central, teriam certamente evitado algumas situações ou, pelo menos, facilitado o combate às chamas.

A verdade é que, para muitos, a floresta continua a não ter peso político. Porque não dá votos. Não se fiscaliza nem se cumpre a lei das limpezas. As próprias entidades públicas, desde autarquias ao Estado central, não dão o exemplo: há terrenos públicos por limpar, caminhos florestais ao abandono e uma ausência gritante de planeamento a longo prazo.

Há ainda outro aspeto sensível que importa referir: a gestão do combate no terreno. Quando um incêndio ganha dimensão, é comum surgirem no teatro de operações elementos da Proteção Civil ou comandantes com mais “galões” que, sem conhecerem o concelho ou a geografia do terreno e do fogo, assumem a coordenação, desvalorizando, por vezes, a experiência e o conhecimento dos comandantes locais e do coordenador municipal de Proteção Civil. Isso, infelizmente, contribui para decisões menos eficazes e pode comprometer a segurança e a eficiência do combate.

Estas palavras não nascem da revolta, mas do amor à causa. Do conhecimento de quem está há décadas no terreno. É tempo de ouvir quem sabe, de agir antes, de respeitar a floresta e os que a defendem.

Enquanto houver quem não vire a cara à luta, Arouca estará sempre de pé. Obrigado a todos os que ajudaram Arouca a ultrapassar mais esta dura prova.

Siga o canal NotíciasdeAveiro.pt no WhatsApp.

Publicidade e donativos

Está a ler um artigo sem acesso pago. Pode ajudar o jornal online NotíciasdeAveiro.pt. Siga o link para fazer um donativo. Pode, também, usar transferência bancária, bem como ativar rapidamente campanhas promocionais (mais informações aqui).