Estação de São João da Madeira.

Numa altura em que se assiste a uma profunda reforma e mudança de governação no setor ferroviário britânico, com a discussão da estratégia de longo prazo, a renacionalização dos serviços ferroviários e a integração do gestor de infraestrutura ferroviário público Network Rail na recém-criada entidade pública Great British Railways, que irá gerir a operação e a rede ferroviária, surge também o debate sobre como o comboio liga o território e quem deve a ferrovia servir.

Por André Pires *

E este é um momento que ganha particular destaque, sobretudo, quando frequentemente é lembrado o famoso “Beeching Report”, documento apresentado, em 1963, por Richard Beeching — antigo responsável máximo da British Railways — e que levou ao encerramento de 8.000 km de linhas, a maior parte delas de caráter regional, e 2.363 estações e ao corte de mais de 67.000 postos de trabalho, deixando inúmeras cidades sem qualquer tipo de transporte ferroviário.Infraestrutura ferroviária

Este acontecimento histórico é ainda debatido nos dias de hoje porque o seu impacto é visível e ainda se faz sentir pelas consequências socioeconómicas negativas que não só contribuíram para o enfraquecimento das economias locais e regionais, como também para o isolamento de diversas comunidades da periferia e do interior britânico.

Mas a vivência atual do processo transformativo ferroviário britânico vai além das reformas, da alteração de modelos de governação e da criação da Great British Railways. Hoje, procura-se recuperar o tempo perdido e os processos de encerramento vão-se revertendo, com resultados positivos.

Os casos mais recentes são a Northumberland Line e a Dartmoor Line. Os 29 km da Northumberland Line encerraram em 1964, tendo-se mantido apenas o serviço de mercadorias. Sessenta anos depois, e após um investimento de 344 milhões de euros, os comboios regionais regressaram em dezembro de 2024 e no primeiro ano de serviço foram transportados um milhão de passageiros, valor que superou as expectativas. Três anos antes foi a vez da Dartmoor Line. Esta ligação ferroviária perdeu o serviço de passageiros em 1968 e 1972, o serviço pontual de mercadorias manteve-se até 2010 e operou como ferrovia turística entre 1997 e 2019. Com um investimento de 46,8 milhões de euros e após quase 50 anos de ausência, os comboios regionais regulares regressaram, em 2021, a esta via férrea e logo nos primeiros dois anos foram transportados mais de 550.000 passageiros.Debates ferroviários

Com o projeto de lei de expansão da rede ferroviária em debate no Parlamento britânico, há pressão por parte da sociedade para reparar erros do passado, como a organização nacional Campaign for Better Transport que defende que na estratégia ferroviária de longo prazo sejam incluídas na lei cláusulas obrigatórias para a expansão e reabertura de linhas, de modo a que a expansão da rede contribua para combater assimetrias regionais.

Numa altura em que a Europa concentra grande parte das atenções e do investimento na criação de uma rede europeia de Alta Velocidade ou de corredores rápidos, a ferrovia regional não pode nem deve ser descurada….

E é neste campo que também se joga o sucesso das intenções, medidas e modelos de governação que contribuem para potenciar os territórios rurais, e onde o Pacto Rural Europeu se assume como uma medida que pode e deve apresentar-se como um manifesto que potencie o desenvolvimento das regiões rurais europeias e garanta a sua sobrevivência demográfica e atratividade económica também através do acesso democratizado ao transporte público. E uma aposta no transporte público feita também com base na promoção de investimento em infraestruturas ferroviárias rurais e regionais, bem como na sua expansão, onde se possa incluir a reabertura de linhas encerradas, tal como se pretende consolidar no Reino Unido.

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